Entrevista - Dr. Stan Grof (parte II)

A Psiquiatria e a Psicologia nos Séculos XX e XXI

As fontes das entrevista de Omega com Grof foram as fitas gravadas nos Congressos Internacionais de Psiquiatria e Psicologia Transpessoal de Manaus (AM) e Águas de Lindóia (SP) acrescidos das perguntas gravadas nas duas palestras proferidas por Grof durante a sua estada em Salvador (BA) em novembro de 2001.

Revista Omega - Como e por que surgiu a Psicologia Transpessoal?

Stan
Grof - Nos últimos anos se tem visto que nossos pressupostos básicos e nossa forma tradicional de pensar quem e o que somos, ao invés de serem generosos, foram mesquinhos com a condição humana. Existe esmagadora evidência proveniente de todas as disciplinas científicas que confirmam que temos grandemente subestimado o potencial de crescimento e de bem-estar psicológico do ser humano. Os mais modernos dados apontados recentemente por estas disciplinas não coincidem com os nossos modelos psicológicos tradicionais. Em resposta a todas estas incongruências, surgiu nos anos 60 a Psicologia Transpessoal, como forma de integrar estes novos achados referentes à capacidade expansiva do ser humano. Para consegui-lo, se nutre de toda a ciência ocidental e de toda a sabedoria oriental.

Omega - Qual seria para você uma definição atual de Psicologia Transpessoal?

Grof
- É a que, baseando-se em todos os estudos e investigações realizadas até hoje no Oriente e Ocidente, expande infinitamente o campo da pesquisa psicológica para incluir o estudo de todos os caminhos que levam a um bem-estar psicológico ótimo e a uma saúde perfeita. Ela reconhece o potencial de todos os seres humanos para experimentar um amplo espectro de estados de consciência nos quais a identidade vai bem além dos limites habituais do ego “encapsulado na pele”.

Omega - Como o primeiro número do “Journal of Transpersonal Psychology”, editado por você em 1969, definiu as suas áreas de interesse?

Grof
- Foram definidos como áreas de interesse para publicação, os trabalhos empíricos, artigos e estudos sobre os processos, valores e estados transpessoais, a consciência unitiva, as experiências “cume” ou “pico”, o êxtase, a experiência mística, o Ser e a Essência, a beatitude, a reverência, o assombro, a autotranscendência, todas as teorias e práticas de meditação, os caminhos espirituais, a compaixão, a cooperação e a atualização das informações transpessoais.

Omega - Como surgiu o termo Transpessoal?

Grof
- O termo foi adotado depois de intensas deliberações, e hoje é reconhecido no mundo inteiro como o mais apropriado para referir-se a todas as experiências que exigem ampliar nossa identidade para muito além da individualidade . Portanto, definitivamente não é um novo modelo da personalidade, já que esta só é um pequeno aspecto da nossa natureza; é muito mais uma indagação sobre a natureza da Essência do Ser.

Omega - Você fala de modelos. O que é um modelo em Psicologia?

Grof
- São representações simbólicas que descrevem os principais traços e dimensões dos fenômenos que representam. Implicam porém vários perigos importantes: condicionam a percepção, delimitam âmbitos de investigação, dão forma e determinam a interpretação dos dados e experiências de maneira a obter resultados que esses próprios modelos profetizam. Por exemplo: tanto o modelo freudiano, que vê como primeiro motivador a libido sexual, como o adleriano, que o busca na luta pelo poder e na superioridade, como o condutista que o procura nos reforços ambientais, todos eles provavelmente terão sucesso nesta busca. Estas características autoproféticas e auto-realizadoras destes modelos que se autovalidam são um perigo para a verdadeira percepção, porque, uma vez integrados, passam a operar em níveis inconscientes. Até chegar ao transpessoal, todas as psicologias só foram modelos.

Omega - Se a Psicologia Transpessoal não é um modelo,então é um paradigma?

Grof
- O exemplo na Física são o paradigma newtoniano e o quântico. Neste contexto ou “container” de determinadas formas de conhecimento e investigação se exclui inevitavelmente outras fontes de informação, tal como acontece com qualquer teoria ou modelo. Os paradigmas configuram a percepção, a indagação e a interpretação, de forma que se tornam autovalidantes. Isto quer dizer que todo paradigma fundamenta a validez dos seus pressupostos e, por conseguinte, termina funcionando como crenças que determinam o que terá acesso à consciência e o que continuará sendo inconsciente. Só isto já determina uma realidade cultural. E por isso que é tão difícil ver através do próprio sistema cultural de crenças, do próprio paradigma e esta capacidade só se pode cultivar através do contato íntimo com outras culturas e crenças.

Omega - O transpessoal representa então uma mudança de paradigma na psicologia ocidental?

Grof
- Paradoxalmente, sim e não. Por um lado, isto é exatamente o que a Psicologia Transpessoal tem feito: uma mudança total de paradigma na psiquiatria e na psicoterapia ocidental, resultado de um profundo e minucioso estudo transcultural no mundo inteiro sobre a natureza da consciência e da realidade, que inclui os estados de consciência mais altos que podemos imaginar. Neste sentido não é um novo paradigma, já que seu campo de estudo ficou ilimitado. Todos os milenares sistemas não-ocidentais refletem enfoques complexos e altamente sofisticados sobre a natureza humana e a potencialidade da sua mente. Reconhecido o tamanho das nossas limitações ocidentais, ficou aberto o caminho para a expansão da teoria psicológica de forma ilimitada e, para tentar através do Transpessoal fundir as visões do Oriente e do Ocidente e transcender a ambas, deixando seu campo de estudo para sempre aberto por ser infinito, como o é a própria Consciência.

Omega - Qual é a importância do paradigma transpessoal no trabalho terapêutico?

Grof
- Por reconhecer um espectro muito mais amplo da consciência e portanto um maior potencial de bem-estar psicológico e transcendência dos admitidos pelos enfoques tradicionais, a perspectiva transpessoal nos oferece todas as condições de trabalhar num contexto de amplitude ilimitada. Por aceitar a relevância das vivências transpessoais - transcendentais, as trata de maneira adequada, como valiosas oportunidades de crescimento. Todos os modelos psicológicos que não reconhecem a possibilidade da percepção transpessoal, interpretam estas experiências de um ponto de vista inadequado e patologizante, o que leva os indivíduos a suprimi-las e ocultá-las como única forma de evitar o risco de internações psiquiátricas.

Omega - De acordo com o que você diz, a psicoterapia atinge um momentum em que se torna indistinguível da indagação filosófica e espiritual sobre a nossa identidade cósmica?

Grof
- Sim. Várias formas da Filosofia Perene e seus sistmas espirituais e psicológicos associados fornecem um excelente mapa do território a ser percorrido neste estágio avançado pelo paciente e pelo terapeuta que a esta altura já se tornaram viajantes companheiros de jornada e exploradores das dimensões desconhecidas da psique.

Omega - De que depende que se concretize no processo terapêutico, o que você chama de “trabalho de viajantes companheiros de jornada”?

Grof
- Depende: 1º) de até onde o terapeuta chegou em sua própria caminhada; 2º) de seu sistema de crenças do qual deriva a sua orientação profissional; 3º) da técnica terapêutica utilizada; 4º) da personalidade, sistema de crenças e atitudes do paciente; e 5º) da qualidade ou “rapport” que se consiga atingir no vínculo terapêutico.

Omega - De acordo com a Psicologia Transpessoal, o universo da Consciência não está só dotado de muitos níveis, mas também de muitas dimensões. O que acontece quando se pretende interpretar isto a partir de uma ótica materialista-psicanalítica?

Grof
- A descrição linear do modelo newtoniano-cartesiano-freudiano é indubitavelmente incompleta e está repleta de inconsistências internas que entram em conflito com outras teorias e modelos da personalidade. O maior problema da psicoterapia ocidental é o fato de que cada um de seus grandes pesquisadores fixou sua atenção num determinado nível da consciência e generalizou suas descobertas à totalidade da psique humana. São portanto essencialmente incorretos, apesar de ter utilidade na faixa ou nível que descrevem, mas nenhum deles é suficientemente amplo nem completo, para justificar seu uso como único método. Hoje, para sermos realmente eficazes na psicoterapia e auto-exploração precisamos de um marco teórico ampliado e baseado no reconhecimento dos múltiplos níveis da consciência.

Omega - Freud iniciou a Psicanálise. Descreva este feito ímpar.

Grof
- O logro extraordinário deste homem, que ainda não era psiquiatra e sim neurologista, foi vasto e diverso. Ele inventou o método da livre associação, demonstrou a existência de uma mente inconsciente e descreveu sua dinâmica, formulou os mecanismos básicos envolvidos na etiologia das psiconeuroses e várias outras desordens emocionais, descobriu a sexualidade infantil, esboçou as técnicas de interpretação de sonhos, decreveu os fenômenos da transferência e desenvolveu os princípios básicos da intervenção em psicoterapia. Porém, por ter estado submetido à potente influência de seu mestre Ernest Bruecke, que visava introduzir os princípios do pensamento cientifico de Newton em todas as demais disciplinas, Freud modelou a sua descrição dos processos psicológicos estritamente de acordo com o mecanicismo newtoniano. Os quatro princípios básicos do enfoque psicanalítico — dinâmico, econômico, topográfico e genético — têm um paralelismo exato com os quatro princípios básicos da física newtoniana.

Omega - Descreva os princípios teóricos básicos da Psicanálise.

Grof
- O estrito determinismo dos processos mentais foi uma das contribuições básicas de Freud. Ele considerava que todo sucesso psicológico era a conseqüência e ao mesmo tempo a causa de outros. O enfoque psicogenético da Psicanálise tenta explicar as experiências e as condutas individuais em termos de etapas ontogenéticas. Isto significa que, para uma plena compreensão do comportamento atual do paciente, é necessária uma exploração de seus antecedentes, em particular da sua história psicossexual da primeira infância, do desenvolvimento da libido, da solução da neurose infantil, da resolução dos temas edípicos e todos os conflitos sexuais, que para Freud determinam de modo crítico o resto da vida de todo indivíduo. É idêntico à mecânica newtoniana no seu uso do conceito de trajetória visualizável em relação aos impulsos instintivos; inclui: a fonte ou origem, o ímpeto, a direção e o objetivo. Para Freud, a história psicológica do indivíduo começa com o nascimento, e se refere a todo recém-nascido como uma “tabula rasa”. O desenvolvimento sexual das primeiras etapas (fases oral, anal, uretral e genital) culmina com o complexo de Édipo ou Electra, significando isto uma atitude positiva para com o genitor do sexo oposto e antagônica para com o do mesmo sexo. Nesta etapa Freud atribui um papel fundamental à sobrevaloração do pênis e ao complexo de castração. O menino abandona suas tendências edípicas por temor à castração. A menina traslada ao pai o apego que originariamente tinha tido com o seio e o amor materno porque se sente “castrada” e espera receber um pênis, ou um filho de seu pai.

Fixações em diversas etapas ou a não-solução da situação edípica convertem-se então em psiconeuroses, perversões sexuais e outras formas de psicopatologias. O sadismo, por exemplo, foi interpretado como uma fusão de sexo e agressão, devido primordialmente à frustração dos desejos infantis. Tudo isto dá uma imagem essencialmente negativa da natureza humana: uma mente conduzida por instintos básicos, onde a sexualidade e a agressividade são componentes intrínsecos e essenciais.

" Os analistas se negam a interagir com marido ou esposa ou quaisquer outros familiares do paciente, ou a incluí-los de qualquer forma no processo terapêutico".

Omega - Fale do conceito psicanalítico na situação terapêutica.

Grof
- Aqui também se vê claramente a potente influência da ciência mecanicista newtoniana-cartesiana na teoria freudiana. A organização terapêutica básica com o paciente deitado no divã e o analista invisível e desvinculado afetivamente, sentado por detrás de sua cabeça, caracteriza o ideal impossível de “observador objetivo”. Reflete a firme crença da ciência mecanicista de que podem ser feitas observações científicas sem a interferência com o objeto ou processo estudado. A dicotomia cartesiana entre mente e corpo encontra também sua expressão máxima na prática psicanalítica e em seu enfoque exclusivo nos processos mentais. As manifestações físicas são interpretadas como reflexo de eventos psíquicos. A expressão das emoções também não é vivenciada, e sim analisada. Como não se inclui nenhum tipo de intervenção física por parte do analista, já que existe um potente tabu contra todo contato físico com o paciente, apoiá-lo na expressão plena das suas emoções (raiva, medo, tristeza profunda) se torna totalmente inviável e desaconselhável, por interferir diretamente no processo transferência-contratransferência. O espaço analítico se tornou uma “bolha isolada” dos eventos sociais, como se fosse possível analisar alguém sem se levar em conta as influências dos contextos. Os analistas se negam a interagir com marido ou esposa ou quaisquer outros familiares do paciente, ou a incluí-los de qualquer forma no processo terapêutico. Além de subestimar os fatores sociais dos seus casos, opõem-se a todo reconhecimento autêntico de fatores transpessoais e espirituais na dinâmica dos transtornos emocionais.

O que se analisa é a forma que tomam os impulsos instintivos que se esforçam por expressar-se e descarregar-se e as diversas forças antagônicas que os reprimem. Esta análise de resistências depende exclusivamente de meios verbais. Na sessão analítica, o paciente se encontra em uma situação passiva, submissa e altamente desvantajosa. Suas perguntas não são respondidas, e o analista, que está em pleno controle da situação, pode optar pelo silêncio absoluto ou pela interpretação, qualificando todo desacordo por parte do paciente como resistência. Pressupõe-se em toda esta teoria que o analista se mantenha objetivo, impessoal, desvinculado emocionalmente, para poder assim manter sob controle todo sintoma de “contratransferência”. É óbvia a influência do modelo médico de poder.

Omega - Qual é então o objetivo da terapia analítica?

Grof
- Ela se concentra na reconstrução do passado traumático e na sua repetição na atual dinâmica da transferência; baseia-se portanto em um modelo histórico, estritamente determinista. O conceito de Freud de melhora é perfeitamente mecanicista: promove a liberação da energia aprisionada pelas neuroses e seu uso através da sublimação para fins construtivos. Freud definiu explicitamente com suas próprias palavras o objetivo primordial da psicanálise, que é: “passar do sofrimento extremo próprio do neurótico à miséria normal da vida cotidiana”. Esta pobreza de objetivos ficou obviamente obsoleta em nosso século XXI, no qual podemos ver claramente a grandeza e a alegria que a alma humana é capaz de atingir.

A falácia fundamental da Psicanálise constitui sua ênfase exclusiva em sucessos biográficos e no inconsciente individual.
Ela tenta generalizar suas descobertas de uma estreita faixa superficial da consciência para abarcar outros níveis e até a totalidade da psique humana. Porém as terapias experienciais atuais, apontam uma quantidade esmagadora de provas de que os traumas infantis, não representam as causas patogênicas primordiais, senão que recriam as condições que facilitam a manifestação de conteúdos e energias de níveis muito mais profundos da psique. Os transtornos emocionais são gerados por uma complexa estrutura dinâmica multidimensional de amplo espectro. A faixa biográfica desta vida representa somente um componente desta complexa estrutura, e os problemas que a envolvem quase sempre têm suas raízes nos níveis transpessoais da realidade.

Omega - Qual seria o ponto mais fraco da Psicanálise?

Grof
- Provavelmente seja o da sexualidade feminina ou o da feminilidade em geral, pois carece de uma compreensão genuína da psique feminina e trata essencialmente as mulheres como varões castrados. Além disso, no campo da psicopatologia, a Psicanálise não encontrou explicações satisfatórias para fenômenos tais como, o sadomasoquismo, a automutilação e o assassinato sádico, dentre outras. Não conseguiu explicar convincentemente observações históricas e antropológicas relevantes, tais como o xamanismo, os rituais de passagem, as experiências visionárias, os mistérios religiosos, as tradições místicas, as guerras, o genocídio nem as revoluções sangrentas. Nenhum destes fenômenos pode ser compreendido de forma adequada sem uma compreensão transpessoal da psique.

A carência geral de eficácia da Psicanálise como instrumento terapêutico deve ser mencionada como uma das limitações mais graves desta teoria, que é por outra parte fascinante, e aportou sem dúvida idéias brilhantes.

Omega - Como os temas da morte e do nascimento são vistos por Freud?

Grof
- Para ele, a morte em princípio não tem representação no inconsciente. Em momento algum compreendeu que nascimento, sexo e morte formam uma tríade inextricável e estão intimamente relacionadas com a morte do ego. O nascimento e a morte são acontecimentos de fundamental importância, que ocupam uma meta-posição com relação a todas as outas experiências da vida. São o Alfa e o Ômega da existência humana; todo sistema psicológico que não as incorpore será superficial, incompleto e de eficácia limitada. O fato da Psicanálise não ser aplicável à maioria dos aspectos da experiência psicótica, às numerosas observações antropológicas, à quase nenhum dos fenômenos parapsicológicos, nem à psicopatologia social grave (guerras, revoluções, totalitarismo e genocídio) reflete claramente que estes aspectos se caracterizam por uma participação essencial da dinâmica transpessoal, e portanto estão claramente fora do alcance da Psicanálise.

"A faixa biográfica desta vida representa somente um componente desta complexa estrutura, e os problemas que a envolvem quase sempre têm suas raízes nos níveis transpessoais da realidade".

Omega - Fale um pouco dos discípulos mais importantes de Freud, e seus aportes à teoria e técnica da psicoterapia.

Grof
- A psicologia individual de Alfred Adler continuou limitando-se exclusivamente ao nível biográfico, mas contrastando com a ênfase determinista de Freud. Adler foi claramente teleológico e finalista, ou seja, se interessou pelo propósito e significado final da vida. Para ele, o princípio que dirige todas as neuroses é o objetivo de converter o indivíduo em um “homem completo”. Este impulso em direção à superioridade, à totalidade e à perfeição representa a necessidade profunda e inconsciente de compensar sentimentos de inferioridade e inadequação. Em última análise, a busca pela superioridade, perfeição e inteireza, significa uma profunda procura pelo significado da vida. O complexo de inferioridade conduz, em Adler, através dos mecanismos de sobrecompensação, a graus extraordinariamente altos de performance, como o demonstra seu exemplo predileto: Demóstenes, o qual tendo nascido gago, se converteu no mais brilhante orador da Grécia antiga. Segundo Adler, os processos conscientes e inconscientes não entram necessariamente em conflito, representando dois aspectos de um sistema unificado (yin e yang) encaminhando-se ao mesmo fim. Nos tornamos inconscientes dos pensamentos e sentimentos que entram em dolorosa contradição com a nossa auto-imagem idealizada.

Devido à enorme complexidade da mente humana, podem ser elaboradas inúmeras teorias diferentes, todas aparentando serem lógicas, coerentes e refletindo observações importantes sobre certos aspectos da realidade psíquica, sendo, não obstante, incompatíveis entre si, e inclusive mutuamente contraditórias. De qualquer forma, devemos compreender que Freud e Adler estão falando de diferentes níveis do espectro, tão bem como o define Ken Wilber, no seu livro “O Espectro da Consciência”.

Omega - Quais foram as contribuições de Wilhelm Reich?

Grof
- Aos 24 anos Reich já era psiquiatra e psicanalista e o próprio Freud lhe deu a direção dos famosos seminários das quartas-feiras. Além disso era membro ativo do Partido Comunista Austríaco. Concordava com a grande importância dos fatores sexuais na etiologia das neuroses, mas enfatizou a “economia sexual” que segundo ele, era o equilíbrio entre carga e descarga de energia, entre excitação e relaxamento sexual. Para ele, a supressão social das sensações sexuais junto com as atitudes que a acompanham constituem a verdadeira neurose. O sintoma clínico é simplesmente sua manifestação exterior. Os traumas originais e a excitação sexual são contidos pelos complexos padrões das tensões musculares crônicas - a “couraça do caráter”. O termo “couraça” ou “armadura muscular” refere-se a função de proteção do indivíduo contra experiências dolorosas e ameaçadoras. Para Reich a influência repressora da sociedade era o fator crítico que contribuía para o orgasmo sexual incompleto e para o congestionamento da bioenergia. Um indivíduo neurótico só consegue manter seu equilíbrio, consumindo seu excesso de energia em tensões musculares, limitando assim sua excitação sexual. Um indivíduo saudável não tem esta limitação; sua energia não se liga à armadura muscular nenhuma, e pode fluir livremente.

A contribuição de Reich para a terapia é significativa e de valor duradouro. Sua insatisfação com os métodos da psicanálise levaram-no ao desenvolvimento de um sistema denominado “Análise do caráter” e, mais tarde, “Vegetoterapia analítica do caráter”. Reich usava hiperventilação, uma variedade de manipulações do corpo e contato físico direto para mobilizar energias reprimidas e remover bloqueios. De acordo com ele, a finalidade da terapia era que o paciente se rendesse totalmente aos movimentos espontâneos e involuntários do corpo, os quais são normalmente associados aos processos respiratórios. Se isto fosse possível, as ondas respiratórias produziriam um movimento oscilante no corpo, que Reich chamou de “reflexo do orgasmo”. Ele acreditava que os pacientes que conseguissem tal resultado na terapia, seriam capazes de se render totalmente numa situação sexual, alcançando um estado de plena satisfação. O orgasmo completo descarrega todos os excessos de energia do organismo, e o paciente livra-se dos sintomas.

Por causa destas idéias foi expulso da Associação Psicanalítica Internacional e também do Partido Comunista Austríaco, porém hoje avaliamos sua enorme contribuição nas áreas dos processos bioenergéticos e seus correlatos psicossomáticos. Ele sentiu a existência de imensos potenciais de energia subjacentes a todos os processos neuróticos e compreendeu, já em 1927, quando publicou “A função do orgasmo”, que era uma futilidade improdutiva, abordá-los apenas verbalmente. Sua compreensão da “couraça” ou “armadura muscular” na cronificação das neuroses são confirmadas pelo trabalho com doses altas de LSD. A confrontação do paciente com o âmago de seus conflitos psicológicos é quase sempre acompanhada por violentos tremores, estremecimentos, contorções, posturas extremas prolongadas, caretas, emissão de sons e vômitos. A congestão da energia sexual no organismo por causa da repressão social, inibe o orgasmo sexual total, e isto provoca o bloqueio da libido no organismo, o qual se expressa para Reich, numa variedade de fenômenos patológicos que vão da neurose ao sadomasoquismo.
Mesmo inconvencionais, e até indisciplinadas, as especulações de Reich são, em essência, freqüentemente compatíveis com os modernos conceitos da ciência. Pelo seu modo de encarar a natureza, ele aproximou-se da visão de mundo sugerida pela física quântico-relativista, enfatizando a unidade cósmica subjacente. Reconheceu o papel ativo do observador, lembrando as especulações filosóficas de David Bohm.

Várias vezes Reich oscilou à beira da compreensão transpessoal e vislumbrou uma consciência cósmica que expressou como a “Energia Orgônica Universal”, porém ele nunca alcançou verdadeira compreensão ou apreciação das grandes filosofias espirituais do mundo.

Em suas apaixonadas incursões críticas contra a espiritualidade, confundia misticismo com versões superficiais e distorcidas das principais doutrinas religiosas. Foi ele quem se opôs mais ferreamente ao interesse de Jung pelo místico. Para ele, inclinações místicas reforçavam a armadura e provocavam uma grave distorção da economia orgônica, e nas próximas citações o expressa claramente: “Medo da morte e de morrer são idênticos a um orgasmo incompleto, ansiedade frente ao” suposto “instinto da morte. “Deus é a representação das forças vivas naturais, da bioenergia do homem, e em nenhum lugar está tão claramente expresso como no orgasmo sexual. O demônio é a representação das forças que levam a perversão e distorção destas forças vivas”.
Em contraste direto com as observações psicodélicas, Reich afirmava que as experiências místicas desaparecem se a terapia consegue desmontar a couraça. Em sua opinião, “a potência orgástica não é encontrada entre os místicos, assim como o misticismo não é encontrado entre os orgasticamente potentes”. Hoje sabemos que esta afirmação está errada.


Emilio Rodrigué, Mestre da Psicanálise, fala aos Oitenta

Emilio Rodrigué é sem dúvida um dos mais notáveis psiquiatras-psicanalistas de Iberoamérica. Foi, em diversos períodos, Presidente da Associação Psiquiátrica Argentina, Vice-presidente da International Psychoanalitical Association (IPA), e Presidente da Federação Argentina de Psiquiatras em seu período ideologicamente mais fecundo, antes da ditadura. Estudou, a partir de 1947, com os maiores expoentes da psicanálise mundial, que na pós-guerra estavam na Inglaterra e nos EUA.

Na Tavikstock Clinic de Londres, estudou com Melanie Klein, Anna Freud, Robert Bion, e se analisou com Paula Heyman. O período de Londres foi de 1947 a 1951. De 1958 a 1962 passou mais de quatro anos na famosa Comunidade Terapêutica “Austen Riggs” de Stockbridge, Massachusets , perto de Harvard, onde trabalhavam os mestres da psicanálise norte-americana Erik Erikson e David Rappaport, dentre outros, e que era dirigida por Robin Knight. Por lá passaram de Tennesse Williams a Bob Dylan. Destes quatro anos nasceu seu clássico e internacionalmente conhecido livro “Comunidades Terapêuticas”. Já há mais de 50 anos, ensinava psicanálise aos psiquiatras uruguaios da Universidade da República, tal como consta no N° 2 da Revista Uruguaia de Psicanálise de 1952.

A partir de 1974 começou a ensinar à várias gerações de analistas baianos. Escritor prolífico, mostra em sua monumental e mais recente obra em 3 volumes, “O Século da Psicanálise”, como escreve bem, quão profundamente conhece aquilo do que escreve, e como sua mente está mais lúcida a cada ano que passa.

Em 1982, como já era tão reconhecido internacionalmente como psicanalista inovador e indomável, alguns membros do staff do Hospital Psiquiátrico de Palma de Maiorca, nas Ilhas Baleares de Espanha, o convidamos para ministrar um Laboratório-Workshop sobre “A Loucura do Nosso Medo”. Foi tão marcante para todos nós, que Emílio escreveu sobre ele um dos seus mais belos livros, “O Último Laboratório” (Ed. Imago, RJ, 1983).

Quando vim morar em Salvador em 83, Emílio me hospedou em sua casa durante meses, e me abriu todos os caminhos profissionais. Esta entrevista tem para mim um tom especial de gratidão e reconhecimento à alguém que vem nos ensinando tanto, há já tanto tempo.

Hoje, depois de 56 anos! (oito setênios) de exercício da profissão, ou seja, 150 mil horas de escuta atenta da alma humana, desfrutemos do que ele tem a nos dizer.

Revista Omega - Como é para você, que é uma figura emblemática na psicanálise latino -americana, observar o declínio da psicanálise?

Emilio Rodrigué - Uma vez mais: declínio, vírgula. Eu acho que a psicanálise cavalga entre dois períodos, fases ou paradigmas. É a diferença que medeia entre “O Futuro de uma ilusão” e “O Mal-estar na cultura”. O Futuro é um texto iluminista, o Mal-estar é pós-moderno. Retomemos o assunto: eu assino tranqüilamente o certificado de defunção da International Psychoanalitical Association e estou pronto a fazer outro tanto com a École de Paris de Jacques-Alain Miller. Lamento ambos decessos e até iria a ambos velórios, deixando uma saudosista flor.

A psicanálise, hoje em dia é outra coisa. Brota nas margens e se expande. Eu a colocaria nos seguintes termos: Freud fundou a hermenêutica moderna, e esse Freud, em meu caderno de bitácora, é o tronco paterno que inclui Jung, Adler, o injustiçado Stekel e o mártir Reich. Trata-se de uma árvore que abarca o psicodrama e a psicologia social de Pichon Rivière e que inspira Devereux na Etnopsiquiatria. Como pai da hermenêutica moderna ele foi o ponto de partida de Rority e a lógica contingente. Detrás de Badiou e de Derrida encontramos a Freud.

Omega - Você se formou médico psiquiatra em 1947 e viajou extensamente por vários centros de excelência de conhecimento durante os anos dourados da Psicanálise. Que diria aos que estão começando o caminho hoje?

ER -
São outros tempos. Quando comecei a assistir seminários, em 1947, a Associação Psicanalítica Argentina tinha um local pequeno, com uma sala onde cabiam umas 15 pessoas. Eram os tempos de Perón e os seminários só podiam ser dados quando um policial, de pé, estava presente. Então, nosso divertimento era escandalizar o homem da lei. A dito fim, líamos em voz alta o trabalho de Garma, totalmente irreverente em relação à Virgem e aos Reis Magos. O policial abria olhos enormes. Tempos pioneiros. Isto nos lembra as famosas reuniões das Quartas Feiras na casa de Freud. Stekel rememora: “As reuniões eram fonte de inspiração. Elegíamos um tema ao acaso e todos participávamos da discussão. Existia uma perfeita orquestração entre nós . Éramos pioneiros em terras ignotas e Freud era nosso líder. Faíscas saiam de nossas mentes e uma nova revelação nos aguardava a cada noite”.

Não se pode mais, ser pioneiros em terras ignotas. Ou talvez sim. Eu aconselharia de fazer o que estou fazendo. Trata-se de um laboratório individual de uma só sessão. Laboratório individual para atender a um paciente, ou a um casal, com uma montagem grupal. É um encontro prolongado de aproximadamente 3 horas, onde se aplicam técnicas alternativas sob uma regência psicanalítica. Sessão única, que tem começo meio e fim.

Omega - Que nome você deu a esta inovadora técnica?

ER -
Quando comecei a trabalhar dessa forma, os cariocas a batizaram de “Shampoo” e os madrilenhos de “Sauna”.

Este invento foi filho da necessidade. Comecei a usá-lo em meus anos de psicoargonauta, quando, exilado, trabalhava em Bahia, e dai partia para Rio, São Paulo, México, Madri e Valência. Psicanalista itinerante. Foi na década dos 70, sob os efeitos do maio francês, e eu estava também bastante influenciado pelas terapias alternativas. Esalen em Big Sur na Califórnia, era a Mecca. Foi a época de Perls, Price e os neoreichianos. Depois, quando retornei ao redil freudiano, arrependido por minha heterodoxia, não soube apreciar o quanto aprendi nestes anos “heréticos”.

Por Mário Rodriguez


Psiquiatria, Saúde Mental e a Lei do Amor

por Dra. Márcia Aguiar

Trabalhando com Psiquiatria por quase 20 anos, a minha energia se moveu por diferentes emoções e sentimentos. Passei da curiosidade à pena, ao horror, ao desejo de ajudar, ao desafio, à frustração. Decidi-me pela psiquiatria movida por um sentimento humanitário e idealista, e uma certa onipotência imatura de ocupar-me com o que na minha percepção, havia de pior na medicina. Passei pelos hospícios aprendendo, me indignando, e também querendo consertar. Hoje, já há alguns anos do lado de fora dos muros dos Hospícios, aprendi que o novo sempre surge do novo, do inédito, do inaudito, do inusitado, porém trazendo a experiência do velho.

A psiquiatria, sempre foi um desafio, e continua sendo, um magnífico desafio! Estes são sempre extraordinários, pois trazem energia, coragem e estímulo. Se não há a força da vontade, melhor desistir, pois as dificuldades são maiores que as facilidades. Precisamos aprender a lidar com a impotência, a frustração e a paciência de respeitar o tempo do processo do outro. Nesta caminhada, é fundamental a companhia do amor. Se me centro Nele quando estou com o outro, este amor que acolhe, e que também dá limites, vibra em mim e reverbera nele. Assim, planto saúde.

Fazer uma nova prática em Saúde Mental, é a minha luta desde que encontrei dentro de mim a chave de saída do Hospício. O amor é a única energia que move para a cura.

Favorecer a não cronificação, não institucionalizar, trabalhar a resistência, desejar pelo outro e estimulá-lo a desejar, acompanhá-lo em seus fracassos, estabelecer acordos, dar limites. É a minha forma de fazer Saúde Mental.
Se há harmonia entre o ego e o Self, gerando bem-estar psicológico, alegria de viver, e coragem para novos desafios existenciais, há Saúde Mental. Possuí-la é ser verdadeiro com os sentimentos, é ter autenticidade, ser íntegro no que se faz, ter consciência dos próprios conflitos, limites e medos, olhar para dentro de si com a coragem de fazer contato com o que lá existe. Saúde mental é abertura, expansão, expressão. É um labor de todos os dias, de honestidade consigo mesmo, sem dissimulações.

Loucura é uma forma de retração, de contração, de constrição da mente centrada apenas em seu aspecto individual, é uma visão restrita da realidade. Toda vez que vemos algo por apenas um aspecto, ângulo ou perspectiva, estamos a caminho da loucura.

Promover saúde é antes de tudo, fazê-lo em si mesmo. Não podemos criar saúde no outro. Curando-nos, estamos contribuindo para que o outro encontre o seu caminho. É apenas contribuir, colaborar, pois cada um produz a sua saúde, ou sua doença, que são processos dinâmicos. Nunca estamos inteiramente saudáveis, ou inteiramente doentes.

Asilo, hospício, é igual a depósito, estagnação, falta de movimento. No asilo você já não deseja, logo, também não se frustra.
Muitos preferem não desejar. Faço parte dos que escolhem desejar, mesmo sabendo que isto pode significar se frustrar. Prefiro a inquietação do dia-a-dia, que a calma da acomodação. Insistir, persistir, e não desistir. Aguardar o tempo que fará brotar as sementes que deixamos em nosso caminho, e que quase sempre não somos nós que iremos colher.

Fazer saúde precisa ser uma relação de troca. Se não consigo refletir, crescer, aprender e expandir com os passos que meu cliente dá, não acontece a troca que deve ser expansiva para ambos. Tratamento eficaz é sempre uma estrada de via dupla.

A escuta é uma arte.
É preciso escutar o outro imparcialmente, e ajudar para que seus aspectos saudáveis se expressem. É nisto que preciso me centrar quando escuto histórias sofridas de cada ser que me chega como cliente, para que o trabalho se realize. Se ofereço resistência ao que escuto, julgando com espanto, repulsa ou indignação, impeço que a relação de ajuda aconteça. Se há julgamento, há estagnação. O amor nunca adoece, é ele que move, descristaliza, faz circular, contagiar, expandir e irradiar. O egoísmo restringe, contrai, tensiona e enlouquece. Saúde é sair de si para ir ao encontro do outro.

São quase duas décadas escutando histórias de vidas, lições, experiências. Devo grande parte dos meus sucessos pessoais, e da minha Saúde Mental ao aprendizado que me propicia o dia-a-dia do meu trabalho.

O Universo é pleno de tudo, só precisamos saber o que necessitamos, e ir em busca. Há pessoas que apenas esperam. Portanto, vivem famintas. Há aqueles que buscam alimento, porém não sabem escolher ou discernir entre o alimento e o veneno. Vivem intoxicados e doentes pelo hábito de ingerirem o que não lhes nutre. Há outros, que sabem o que precisam, distinguem o joio do trigo, são persistentes em seus intentos, e aprendem de fato a se nutrir.

Porém, há ainda aqueles que se apegam aos venenos que ingerem e pensam que são nutritivos. Presos que estão à culpa, não se sentem no direito do alimento verdadeiro. Estes são os que costumo chamar de dependentes do sofrimento, amantes da dor, pois imaginam que esta é a única maneira de sentirem emoções, de se sentirem de fato vivos, de serem “salvos”.

Todo ser humano tem facilidades e dificuldades, precisamos aceitar ambas. O caminho da iluminação é a arte de lidar todo o tempo com esses dois aspectos de nós mesmos.
Os afetos específicos também alimentam o homem, e o impelem para frente. Um amor verdadeiro de um ser para o outro, o amor a uma ideologia, a uma causa tornam rica a vida. Porém, precisamos estar atentos para outras formas de expressão amorosa e para a importância de nos colocarmos inseridos num contexto coletivo.
Trazemos em nós o resultado do aprendizado de muitas experiências, nesta, e em outras existências. Isso é parte de minha crença, logo permeia tudo o que faço.

A vida é um processo, um constante vir a ser. Já trilhamos bem mais do que acreditamos, mas sempre há mais a percorrer. É preciso lembrar que não é só o andar de um indivíduo, ou de um grupo, é um caminhar coletivo de toda a humanidade. Cada profissional, envolvido de corpo e alma em promover Saúde, dá no seu passo, na sua arte e na sua ciência, a sua contribuição.

Márcia Aguiar é psiquiatra clínica (UFBA-1984), foi Vice-diretora do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, e Diretora clínica do Sanatório Bahia. Desde 1997 é Diretora clínica do ICEP, “Instituto Nise da Silveira”. É médica homeopata e psicoterapeuta transpessoal.

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