Emergência Espiritual

Dr. Stanislav Grof

Stanislav Grof é para a Psicologia Transpessoal o mesmo que Freud foi para a Psicanálise. Tanto em termos clínicos, como teóricos, como práticos. Grof "praticou" Psicologia Transpessoal, desde antes de terminar sua graduação como médico psiquiatra. Aos 24 anos, quando já trabalhava como pesquisador no departamento de Medicina Psiquiátrica na Universidade de Praga, República Checa, ele tomou uma potente dose de LSD-25 e viveu, durante algumas horas, uma extraordinária viagem de Consciência Cósmica. Segundo ele, esta experiência o marcou profundamente em toda sua vida tanto pessoal como profissional. Hoje com 71 anos, e internacionalmente reconhecido como o maior expoente da Psicologia Transpessoal no mundo, ele nos concedeu esta entrevista, na sua breve mais frutífera estada em Salvador. (*)

Revista Omega - O que o levou a estudar com tão profundo interesse os estados não-comuns de consciência?

Stanislav Grof - Em meu trabalho como psiquiatra, inúmeras questões fundamentais sobre a existência, que os seres humanos têm-se feito desde tempos imemoriais, emergiram de forma espontânea e com urgência extraordinária nas mentes de muitas das pessoas com as quais tenho trabalhado. A razão de ser esse um campo incomum de estudo despertou-me o interesse que tem sido o foco principal durante 45 anos de vida profissional: a pesquisa sobre estados expandidos de consciência. Este interesse surgiu de forma inesperada e dramática em 1956, apenas alguns meses após minha formatura da escola médica, quando fui voluntário para uma experiência com o LSD, enviado para experimentação por Albert Hoffman, do laboratório Sandoz, em Basilea, Suíça. Esta experiência proveu a inspiração para meu compromisso de vida com a pesquisa da consciência. Embora tenha me interessado por todo o espectro dos estados alterados de consciência, tive mais experiências pessoais com a exploração psicodélica, com o trabalho terapêutico, envolvendo pessoas vivendo crises psicoespirituais espontâneas (emergências espirituais), e com o trabalho de respiração holotrópica.

Omega - E nesses 45 anos de estudo, pesquisa e trabalho, que descobertas o Sr. constatou quanto à natureza, às dimensões da consciência humana?

Grof - Primeiro, as implicações extraordinárias desse estudo sistemático da Consciência para a compreensão das desordens emocionais e psicossomáticas na psicoterapia. As experiências e observações provenientes desta exploração revelaram aspectos e dimensões da realidade que geralmente estão escondidos de nossa percepção diária. Elas confirmam e apóiam a postura dos ensinamentos clássicos das filosofias espirituais e tradições místicas, tais como Vedanta, Budismo Mahayana e Hinayana, Taoísmo, Sufismo, Gnosticismo, Misticismo Cristão, Cabala, e muitos outros sistemas espirituais sofisticados. Assim sendo, essas descobertas são radicalmente conflitantes com os pressupostos básicos da ciência materialista na medida em que indicam claramente que a Consciência é o princípio primário da existência, e que tem papel fundamental na criação do universo dos fenômenos. Esta pesquisa também muda radicalmente nossa concepção da psique humana. Ela mostra que a psique de cada um de nós é essencialmente comensurável ao Todo da existência e idêntica ao próprio princípio criativo do cosmos. Essa moderna pesquisa, em sua essência, confirma os princípios básicos da chamada "filosofia perene", que revelou um grande esquema proposital subjacente a toda criação e mostrou que toda a existência é permeada por uma inteligência Superior. À luz destas descobertas, a espiritualidade afirma-se como o empreendimento mais importante e legítimo da vida humana, já que reflete uma dimensão crucial da psique e do esquema universal das coisas.

Omega - De que maneira estas novas descobertas, que confirmam e apóiam os ensinamentos das tradições místicas e filosofias espirituais do passado, são radicalmente conflitantes com a visão materialista do universo?

Grof - Se considerarmos a descrição do universo, natureza e seres humanos desenvolvida pela ciência materialista, fica claro que esta contrasta frontalmente com os relatos oferecidos pelas escrituras das grandes religiões do mundo. Tomadas literalmente e julgadas pelos critérios de várias disciplinas científicas, as histórias da criação do mundo, origem da humanidade, morte e renascimento de personagens divinas pertencem ao reino dos contos de fadas ou aos manuais de psiquiatria. As tradições místicas e as filosofias espirituais do passado têm sido com freqüência descartadas e ridicularizadas por serem consideradas irracionais e não-científicas. Isto é um julgamento mal informado que não tem justificativa nem legitimidade.

Muitos dos grandes sistemas espirituais são produtos de milênios de profundas explorações sobre a consciência e a psique humana, o que de muitas formas se assemelha à pesquisa científica. Estes sistemas oferecem instruções detalhadas dos métodos de induzir experiências espirituais sobre as quais baseiam suas convicções filosóficas. Elas vêm sistematicamente coletando dados provenientes destas experiências e sujeitando-os à validação por consenso coletivo, geralmente por um período de muitos séculos. Estes são exatamente os estágios necessários para se alcançar um conhecimento sólido e confiável em qualquer área de empreendimento científico. É muito estimulante o fato de essas conclusões, embora frontalmente conflitantes com nossa sociedade tecnológica moderna, serem totalmente concordantes com a realidade encontrada em todas as tradições espirituais universais, as quais o escritor e filósofo anglo-americano Aldous Huxley chamou, em 1945, de "Filosofia Perene". A Psiquiatria Ocidental descartou as tradições místicas como `irracionais e não científicas", porém elas são o produto de milênios de profundas explorações sobre a Consciência. A observação atenta da similitude de resultados com o uso milenar das mesmas técnicas comprovam a sua existência e veracidade. Este é o sonho de toda moderna pesquisa científica: a confirmação das suas afirmações pelo maior de todos os Mestres - o Tempo. A diferença mais gritante entre as duas visões de mundo não é a quantidade e exatidão dos dados sobre a realidade material. É uma divergência fundamental relativa à dimensão sagrada ou espiritual da existência. Todos os grupos humanos da era pré-industrial concordavam em que o mundo material que percebemos e no qual operamos em nossa vida cotidiana não é a única realidade. Suas visões de mundo, embora variassem em detalhes, descreviam o cosmos como um sistema complexo de níveis de existência ordenados hierarquicamente. Nesta compreensão da realidade, o mundo da matéria é o último elo, o mais denso. Estas descrições das dimensões sagradas da realidade e a ênfase sobre a vida espiritual estão em nítido conflito com o sistema de crenças que domina a civilização industrial, na qual vida, consciência e inteligência são vistas como epifenômenos mais ou menos acidentais e insignificantes deste desenvolvimento. Claramente, a compreensão da natureza humana e do universo baseada em tais premissas é o princípio incompatível com qualquer forma de crença espiritual.

Omega - O que significa a mudança radical da concepção da psique humana de que o Sr. fala?

Grof - Segundo a ciência ocidental, o universo é uma montagem enormemente complexa de partículas materiais. Alega-se que a vida, a consciência e a inteligência surgiram numa porção negligenciável de um cosmos imenso após bilhões de anos de evolução da matéria. A vida deveria sua origem a processos químicos fortuitos no oceano primevo que uniu átomos e moléculas inorgânicas, assim formando compostos orgânicos. A matéria orgânica adquiriu, então, no decorrer da evolução, a capacidade de autopreservação, reprodução e organização celular. Os organismos unicelulares agrupavam-se criando formas de vida multicelulares cada vez maiores, e eventualmente desenvolveram-se em uma rica panóplia de espécies habitando a terra, culminando no homo sapiens. Dizem-nos que a consciência emergiu nos estágios adiantados desta evolução advinda da complexidade dos processos fisiológicos no sistema nervoso central. Seria um produto do cérebro e como tal estaria confinada à parte interna do crânio.

Segundo esta maneira de compreender a realidade, o conteúdo de nossa psique é mais ou menos limitado à informação de nossos órgãos sensoriais no contato com o mundo externo desde a época que nascemos. Além disso, a natureza e a extensão de nossa recepção sensorial é determinada pelas características físicas do meio ambiente e pelas propriedades e limitações fisiológicas de nossos sentidos. Por exemplo, não podemos ver objetos se estivermos separados deles por uma parede sólida.

As experiências nos estados não-comuns de consciência desafiam seriamente tal compreensão estreita do potencial da psique humana e dos limites de nossa percepção. O que podemos vivenciar nestes estados não se limita a memórias de nossas vidas após o nascimento e ao inconsciente individual de Freud, conforme fomos levados a acreditar através dos ensinamentos dos cientistas materialistas. As experiências holotrópicas alcançam muito além das fronteiras do que o escritor anglo-americano Alan Watts jocosamente chamou de "o ego encapsulado na pele". Elas nos levam a vastos territórios da psique ainda não mapeados pelos psicólogos e psiquiatras ocidentais.

Omega - O Sr. havia dito que, pelas suas observações, a espiritualidade é um importante e legítimo empreendimento na vida humana, já que "reflete uma dimensão crucial da psique e do esquema universal das coisas". Por favor, explique isso.

Grof - A espiritualidade baseia-se em experiências diretas de dimensões não-comuns da realidade. Ela envolve um tipo especial de relação entre o indivíduo e o cosmos e é, em sua essência, um assunto individual e íntimo. No berço de todas as grandes religiões, encontram-se as experiências visionárias de seus fundadores, profetas, santos e até mesmo de seus seguidores comuns. Todas as principais escrituras espirituais - os Vedas, os Upanishads, o Cânon Pali Budista, a Bíblia, o Alcorão, o Livro dos Mormons, e muitos outros - são baseadas em revelações pessoais diretas, que revelam verdades profundas sobre alguns aspectos básicos da existência. Buda teve a visão da longa cadeia de suas encarnações anteriores e experienciou uma profunda liberação dos elos cármicos. A "jornada milagrosa" de Maomé, um poderoso estado visionário durante o qual o arcanjo Gabriel o escoltou através dos sete céus Muçulmanos, o Paraíso e o Inferno, foi a inspiração do Alcorão e da religião Islâmica. Na tradição judaico_cristã, O Antigo Testamento oferece um relato dramático da experiência de Moisés com Jeová na sarça ardente, e o Novo Testamento descreve a tentação de Jesus pelo diabo durante sua estada no deserto. De maneira semelhante, a visão ofuscante que Saulo teve de Cristo a caminho de Damasco, a revelação apocalíptica de São João em sua caverna, na ilha de Patmos, a observação de Ezequiel da carruagem de fogo e muitos outros episódios são claramente experiências transpessoais em estados não-comuns de consciência.

Infelizmente, a psicologia e a psiquiatria tradicionais são dominadas pela filosofia materialista, não têm uma compreensão genuína da religião nem da espiritualidade e rejeitam indiscriminadamente quaisquer conceitos e atividades espirituais. Muitos personagens religiosos e espirituais, tais como Buda, Jesus, Ramakrisma e Sri Ramana Maharshi, São João da Cruz, Santa Tereza d´Avila, têm sido vistos como que sofrendo de psicoses devido às suas experiências visionárias e "delusões".

Omega - Nesse sentido, ciência e religião são incompatíveis?

Grof - É difícil reconciliar conceitos como Consciência Cósmica, reencarnação ou iluminação espiritual com os princípios básicos da ciência materialista. Porém não é impossível fazer uma ponte sobre o hiato entre ciência e religião se as duas forem compreendidas corretamente. Há muita confusão entre as concepções errôneas sobre a natureza e função da ciência- que resultam no uso impróprio do pensamento científico- e a má compreensão relativa à natureza e função da religião. A falha em diferenciar espiritualidade de religião é provavelmente a mais importante fonte de mal-entendidos concernentes à relação entre ciência e religião. Compreendidas corretamente, a verdadeira ciência e a religião autêntica são duas importantes abordagens à existência que são complementares. E o único campo capaz de abordar a espiritualidade cientificamente é, portanto, a pesquisa, que focaliza a exploração sistemática e imparcial dos estados não-comuns de consciência.

Omega - Como o Sr. define os estados não-comuns de consciência?

Grof - Dou ao estados não-comuns de consciência o nome de holotrópico, que literalmente significa "orientado ou movendo-se para a totalidade / inteireza" (do grego Holos : Todo/inteiro; e Trepein : movendo-se para ou em direção a). Eles nos trazem extraordinários insights filosóficos, metafísicos e espirituais, reveladores de aspectos e dimensões cruciais da Grande Realidade, que normalmente ficam ocultos à nossa Consciência ordinária. Indicam, com clareza, que nossa psique não é um produto do cérebro, mas o princípio primário da Existência, que tem o papel original na criação do universo fenomênico, tal qual o vemos. O termo holótropico sugere que em nosso estado diário de consciência nós não estamos realmente inteiros; estamos fragmentados e nos identificamos com apenas uma pequena fração de quem realmente somos.

Omega - Como se caracterizam estes estados holotrópicos?

Grof - Caracterizam-se por uma transformação específica da consciência, associada a mudanças de percepção em todas as áreas sensoriais, emoções intensas e geralmente estranhas e profundas alterações nos processos de pensamento. Eles, geralmente, também são acompanhados por uma variedade de intensas manifestações psicossomáticas e formas de comportamento não-convencionais. A consciência é mudada qualitativamente de forma muito profunda e fundamental, mas, diferente das condições de delírio, ela não é deteriorada. Nos estados holotrópicos, experimentamos uma entrada em outras dimensões da existência, muito intensas e às vezes avassaladoras, mas não perdemos contato com a realidade externa. Experimentamos de forma simultânea duas realidades bem diferentes, que vão desde o enlevo extático até certas formas de sofrimento emocional extremo.

"A diferença mais gritante entre as duas visões de mundo não é a quantidade e exatidão dos dados sobre a realidade material.
É uma divergência fundamental relativa à dimensão sagrada ou espiritual da existência".

As emoções associadas a estados holotrópicos cobrem um amplo espectro que se estende muito além dos limites de nossa experiência diária. Elas vão desde sensações de bem-aventurança celestial, "paz além de qualquer compreensão" a episódios de terror abismal, raiva sobrecomum, desespero total, culpa consumidora, e outras formas de sofrimento emocional extremo. As sensações físicas que acompanham estes estados são igualmente polarizadas. Dependendo do conteúdo da experiência, pode-se ter uma sensação extraordinária de prazer, saúde e bem-estar, de perfeito funcionamento fisiológico, mas, também, podem ser de desconforto extremo, tais como dores lancinantes, opressão, náusea, ou sensação de estar sufocando.

Omega - Como médico psiquiatra, de que maneira o Sr. descreve esse estado?

Grof - A psiquiatria moderna não faz diferença entre estados espirituais ou místicos e episódios psicóticos. As pessoas vivendo esses estados geralmente são diagnosticadas como doentes mentais, hospitalizadas e submetidas a tratamento farmacológico de sedação. Mas minha esposa e eu sugerimos que muitos desses estados são, na realidade, crises psicoespirituais ou "emergências espirituais". Se compreendidas de forma apropriada e se os indivíduos, passando por estas crises, tiverem o apoio de facilitadores experientes, os episódios deste gênero podem resultar em curas psicossomáticas, aberturas espirituais, transformações positivas da personalidade e evolução de consciência.

Omega - Como são induzidas essas experiências holotrópicas?

Grof - Podem ser induzidas por meio de várias técnicas aborígines antigas, que na Antropologia são chamadas de "Tecnologias do Sagrado". Uma particularmente eficaz tem sido a utilização ritualística de plantas e substâncias psicodélicas.
Estas técnicas de mudança de consciência têm desempenhado um papel crítico na história ritualística e espiritual da humanidade. A indução a estados holotrópicos tem sido absolutamente essencial ao xamanismo, aos ritos de passagem e a outras cerimônias das culturas nativas. Ela também representou o elemento-chave dos antigos mistérios de morte e renascimento que foram conduzidos em diferentes partes do mundo e aflorou principalmente no Mediterrâneo. Nos tempos modernos, o espectro de técnicas de alteração mental enriqueceu consideravelmente. As abordagens clínicas incluem a utilização de alcalóides puros de plantas psicodélicas ou de substâncias psicodélicas sintéticas, assim como as formas potentes de psicoterapia existencial, tais como hipnose, terapia primal, renascimento e respiração holotrópica. É importante enfatizar que episódios de estados holotrópicos de profundidade e duração variadas também ocorrem espontaneamente sem qualquer causa específica identificável, e freqüentemente contra a vontade das pessoas envolvidas.

Omega - Você organizou o XIV Congresso Internacional de Psicologia e Psiquiatria Transpessoal em Manaus, em 1996, com o nome de "Tec-nologias do Sagrado", que contou com quase 2000 profissionais americanos da área. Você conhece muito bem o trabalho com a Hoasca de vários mestres da Amazônia. Na sua palestra na ABM eu lhe perguntei: qual é hoje, a substância enteógena por excelência, sem efeitos colaterais, que não produz dependência e é ao mesmo tempo benéfica para o desenvolvimento mental, emocional e espiritual da pessoa. Você pode repetir a sua resposta?

Grof - No percursso dos 45 anos de carreira profissional de Psiquiatria e Pesquisa da Consciência, já conduzi pessoalmente mais de cinco mil sessões com substâncias expansoras da consciência, tais como: LSD, Psilocibilina, Mescalina, Dipropil-triptamina e Metil- dioxi-anfetamina, e tive acesso a mais de 2000 sessões conduzidas pelos meus colegas psiquiatras. A substância enteógena por excelência, de acordo com sua pergunta, e que reúne essas condições, é a Hoasca. É justamente por isso que Manaus foi escolhida para sediar um evento dessa relevância. Várias Universidades do mundo, incluindo algumas norteamericanas muito prestigiadas, como a UCLA (University of California, em Los Angeles) têm feito pesquisas neurofarmacológicas e psicológicas intensas e de longo prazo sobre o poder enteógeno e benéfico da Hoasca.

Omega - De que natureza é o conteúdo desses estados holotrópicos de consciência?

Grof - É geralmente de natureza filosófica e espiritual. Nesses episódios podemos experimentar seqüências de morte e de renascimento psicoespiritual ou sensações de unidade com outras pessoas, com a natureza, o universo e com Deus. Podemos descortinar o que parecem ser memórias de outras encarnações, encontrarmo-nos com poderosos seres arquetípicos, comunicarmo-nos com entidades desencarnadas, e visitar numerosos domínios mitológicos.

"E assim, nada além da experiência de união mística com a fonte divina irá saciar nossos anseios
mais profundos."

Os insights vivenciados são acompanhados por uma sensação de clarificação repentina. Como neste nível o mundo material é percebido como uma expressão da Consciência Absoluta, e esta última, por sua vez, parece ser intercambiável com o Vazio Primordial, as experiências transcendentais deste gênero provêm uma solução inesperada para alguns dos problemas mais difíceis e complexos que acossam a mente racional. Os insights de pessoas que já vivenciaram estados holotrópicos de consciência relativos à origem da existência são de uma impressionante semelhança àqueles encontrados na "filosofia perene": O reconhecimento de nossa própria natureza divina, nossa identidade com a fonte cósmica, é a descoberta mais importante que podemos fazer durante o processo de exploração profunda. É a revelação de que nossa identificação usual com "o ego encapsulado na pele", consciência individual corporificada, ou "nome e forma" é uma ilusão e que nossa verdadeira natureza é a energia cósmica criativa. Esta revelação relativa à identidade do indivíduo com o divino é o segredo supremo que se encontra no cerne de todas as grandes tradições espirituais, embora seja expresso de formas diferentes.

Omega - A partir desses insights, como se percebe o mundo material?

Grof - É percebido como um mundo de matéria sólida, onde se destaca o espaço tridimensional, o tempo linear e a causalidade inexorável, conforme o experimentamos em nossos estados comuns de consciência. Em vez de ser a única realidade verdadeira, conforme é retratado pela ciência materialista, é uma criação da Consciência Absoluta. À luz desses insights, o mundo material de nossa vida cotidiana, incluindo nosso próprio corpo, é uma tessitura intrincada de percepções e leituras errôneas, uma "realidade virtual" infinitamente sofisticada, uma peça de teatro divina criada pela Consciência Absoluta e o Vazio Cósmico. Nosso universo, que parece conter incontáveis miríades de entidades e elementos separados, é em sua essência mais profunda um só Ser de imensas proporções e complexidade inimaginável. E assim, nada além da experiência de união mística com a fonte divina irá saciar nossos anseios mais profundos.

Omega - Alguns sistemas religiosos retratam o mundo material como um domínio inferior, que é imperfeito, impuro e conducente ao sofrimento e à miséria. Outras orientações espirituais abraçam a natureza e o mundo material como contendo ou incorporando o divino, ou definem o objetivo da jornada espiritual como dissolução das barreiras pessoais e reunião com o Divino. Como o Sr. vê isso?

Grof - De fato, alguns credos retratam a realidade como um vale de lágrimas e a existência encarnada como uma maldição ou um pântano de morte e renascimento, e oferecem a seus seguidores a promessa de um domínio mais desejável ou um estado mais satisfatório de existência no Além. Já outras têm uma orientação distintamente afirmadora e celebradora da vida. O Mahayana Budista, por exemplo, ensina que podemos alcançar a libertação em meio à vida diária se nos libertarmos dos três "venenos" _ ignorância, agressão e desejo. Contudo, as pessoas que chegaram a experienciar, em suas explorações internas, a identificação com a Consciência Absoluta percebem que definir o objetivo final da jornada espiritual envolve um problema sério: a indiferenciada Consciência Absoluta/Vazio representa não apenas o fim da jornada espiritual, mas também a fonte e o início da criação.

Há, portanto, uma interação dinâmica de duas forças fundamentais: uma centrífuga (hilotrópica ou orientada para a matéria); outra centrípeta (holotrópica ou visando à totalidade) em relação ao princípio criativo. A Consciência Cósmica mostra uma tendência elementar de criar mundos de pluralidade que contêm incontáveis seres separados, e, inversamente, as unidades de consciência individualizadas experienciam sua separação e alienação como dolorosas e manifestam uma forte necessidade de voltar à fonte e reunir-se a ela. A identificação com o eu corpóreo é repleta de problemas de sofrimento físico e emocional, limitações espaciais e temporais, impermanência e morte. Sentimos, no entanto, na profundidade de nosso interior, que nossa existência enquanto eu corpóreo e separado no mundo material é, em si e por si, inautêntica e não pode satisfazer nossas necessidades mais profundas. Sentimos um apelo muito forte para transcender nossas barreiras e recuperar nossa verdadeira identidade.

"Quando as coisas ficam por demais difíceis e devastadoras, podemos invocar a grande perspectiva cósmica que descobrimos na busca interna. A conexão com realidades mais elevadas e o conhecimento libertador de anatta e do vazio por trás de todas as formas tornam possível tolerar aquilo que de outra forma poderia ser insuportável."


Em Medicina, Deixar de Aprender é Crime!

Esta máxima sobre o exercício da cura, que se aplica tanto à Medicina quanto à Psicologia,
é comentada pelo psicólogo Mário Rodriguez.

"Só se pode falar com verdadeira propriedade das experiências e sentimentos
que marcaram nossa própria caminhada."

Como eu sonhava muito e não entendia nada, aos 16 anos, meu pai me deu "A Interpretação dos Sonhos", de Freud. Li, e aos 17 comecei a minha primeira análise com Dr. Winkler, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina e membro didata da APU (Associação Psicanalítica do Uruguai).

Sua enorme casa no Boulevard, em frente à imponente Faculdade de Arquitetura da República, era para mim Berggasse 29 (1). Eu subia "voando" as longas escadas do "Castelo de Saber" de Winkler, onde os meus sonhos eram "desvendados à la Freud". Depois da sessão, descia lentamente, avaliando cada degrau e cada palavra que eu tinha me dito, tanto mais que as que Winkler tinha dito. Muito cara a Psicanálise, mas na época (1967) era a única forma que tínhamos de escutar o ouro da palavra "bem-dita" e aliviar nossa alma e nosso corpo do chumbo da palavra "mal-dita".

Aos 18, senti que estava "podendo" interpretar as mensagens da minha alma, que chegavam através dos sonhos, e portanto estava pronto para deixar o "Castelo" e sair à procura do "Graal". Um ano nos EUA me deu a "Língua do Império" e uma certa compreensão dele; outro ano, viajando de barco pelo mundo, um pouco da dimensão da grandeza dos seus povos. Muitos anos de Universidades na Alemanha, França e Espanha não saciaram a minha sede de Universo, que então, eu não sabia, é infinita. Nesses anos universitários, tive três grandes psicanalistas. Já aqui no Brasil, "completei" o trabalho com 5 anos de uma "Psicanálise Didática", com um dos mais reconhecidos analistas lacanianos, o primeiro "A. E." do Brasil: Analista de Lcole Freudienne de Paris", juridicamente os únicos legítimos herdeiros da propriedade intelectual da obra de Lacan.

Em Psicanálise Grupal, a experiência ganhou climax quando, em 1982, convidamos Emilio Rodrigué (glória da Psicanálise latino-americana e pai de várias gerações de psicanalistas baianos) para ministrar um workshop-laboratório sobre "A LOUCURA", para o staff do Hospital Psiquiátrico de Palma de Maiorca. Do Psiquiatra - Diretor até à enfermeira psiquiátrica, 18 profissionais da Saúde Mental "enlouquecemos" a tal ponto, durante três dias, que só a grande intuição e as muitas décadas de experiência no leme de Rodrigué evitaram um desastre. Nesses três dias de violentas tempestades, ele guiou o barco, com pulso firme, entre rochedos, e levou Ulysses, seu barco e sua gente a um porto seguro de retorno. Esta "Odisséia" foi relatada por Rodrigué num livro, e está disponível, com os nomes próprios dos participantes (2).

É difícil argumentar que eu não estudei profundamente a Psicanálise ou que não a transitei apaixonadamente no intuito tempestuoso de me compreender. Mas não foi suficiente. Por quê? Jean Ives Leloup, mestre do Transpessoal, responde de forma impecável (3): "porque não é preciso opor o conhecimento de si mesmo que a Psicologia propõe ao conhecimento de si mesmo que a Espiritualidade propõe. Uma Psicologia que não se abre a um itinerário espiritual arrisca-se a nos enclausurar e até mesmo a nos desesperar. Como o próprio Lacan diz: "O sinal de que uma psicanálise teve êxito é que a pessoa analisada vai se suicidar" (sic: citado textualmente por Leloup do original francês). Que pobreza de prêmio para quem se empenhou tanto tempo, arduamente, de mente e de alma, para conhecer-se e compreender-se e assim tentar conhecer e compreender o mistério da Vida. O suicídio, o prêmio mais miserável de todos. Leloup, como sempre, vê além: "Ao final de uma análise, ao final de um itinerário espiritual, não sobra quase nada da imagem que se tinha de si mesmo no início do processo. É como se (4) houvesse uma morte. Mas o objetivo não é a morte; é a ressurreição. A Psicanálise é uma psicologia fechada em si mesma, dependente de uma antropologia limitada, não aberta à transcendência, não aberta ao desconhecido que habita a profundeza do ser humano e a profundeza do Ser Cósmico".

Um claro exemplo desta antropologia limitada é a resposta dada por Jorge Forbes, talvez o mais conhecido e citado lacaniano do Brasil (5), à última pergunta da revista "Isto É", de 02-05-01. Perguntado se a globalização pode ser benéfica ao indivíduo, ele responde:
"Antigamente o jovem dizia que não tinha liberdade de escolha. Hoje ele tem esta liberdade e se sente perdido. Por não saber o que fazer, acha que tudo o que faz é pouco. E quando chega a esta conclusão, se deprime ou se droga. Mas é bom lembrar que os próprios jovens nos indicam as soluções: a música eletrônica e os esportes radicais(?!) surgem como as novas formas de lidar com o mundo moderno." (sic: fim da entrevista!).

Esta outra "pérola" do pensamento lacaniano nos faz perguntar: para quem fala ou escreve Forbes? Como se pode analisar alguém durante tantos anos para chegar a conclusões tão paupérrimas em relação ao Sentido da Vida, ao chamado "Desejo" em Lacan, ou o Verdadeiro Querer do Espírito Humano? Leloup, nas antípodas, conhecendo o caminho do meio, diz: "Mas os itinerários espirituais sem o discernimento psicológico, sem um trabalho de transformação pessoal correm o risco de nos conduzir à megalomania e ao narcisismo (....). O que impressiona em um ser humano que entrou neste caminho de transformação é, ao mesmo tempo, sua grandeza e sua humildade. Ele sabe que é pó e que ao pó retornará, mas também sabe que é luz e que à Luz retornará. O que é o ser humano senão essa poeira que caminha para a Luz e dança nela? O importante é o caminhar".

Onze anos atrás, na imprensa baiana, aconteceu um incidente entre o Dr. R. Chemas, médico psiquiatra e cientista, e um outro colega, também médico psiquiatra e analista lacaniano. Por causa da extrema vigência da carta-resposta de R. Chemas, escrita em 1990, num mundo em que tudo muda com tanta vertigem, ÔMEGA decide republicá-la.

Chemas conhece a psicanálise por dentro. Foi estudioso de Freud e Jung desde a Faculdade, submeteu-se a longos anos de análise com o próprio Emílio Rodrigué. Mas o relevante é que aprendeu dos gregos a não fazer diferenças entre ciência, filosofia, espiritualidade e alquimia. Chama a todas elas PHYSIS, só diversas formas dos humanos de tentar explicar e expressar O Supremo. Talvez seja por saber fazer tão bem esta síntese que é considerado um dos quinhentos maiores cientistas vivos do mundo (6).

A pertinência desta republicação é pautada por outros fatos:

a) A evidência (que fica clara através do texto de Chemas) de que a Psicologia Transpessoal mantém seus postulados em concordância com as mais modernas descobertas científicas e que segue os critérios de pesquisa da Ciência.

b) O fato de que no número anterior desta revista mencionamos tantos dos conceitos usados por Chemas nesta carta, bem antes de tê-la lido, lhe confere um caráter premonitório. Os conceitos de Kosmos x Kaos; Espaço-Tempo n-dimensional; papel chave de Grof como o maior pesquisador científico da Consciência, só se confirmaram e reafirmaram neste últimos 11 anos.

c) Em novembro passado, com toda a sua imensidão de bondade, corpo e humildade, Grof esteve em Salvador. Presenteou-nos com duas brilhantes palestras, a primeira na UNEB e a segunda, de quatro horas, no auditório Magno da Associação Baiana de Medicina. Esta última contou com a quase total ausência de médicos, psiquiatras, psicólogos e ou psicanalistas para escutá-lo e questioná-lo. Queremos ressaltar a responsabilidade do trabalho científico, consciente que Grof fez, durante mais de 45 anos, das substâncias enteógenas (7) em geral e do LSD em particular, para pesquisar e mapear a aparente infinita amplidão da nossa Consciência.

Seu extraordinário prestígio internacional como diretor do Centro de maior excelência em pesquisa psiquiátrica do mundo, o Maryland Psiquiatric Research Center (8), que é diretamente vinculado ao Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, mas seus 7 anos de professor de Psiquiatria do centro considerado a "Harvard" da Medicina, a Universidade John Hopkins, em Baltimore, Maryland (9), qualificam Grof para saber falar deste assunto.

Honrando todos estes pontos, e no intuito de que os profissionais da Saúde tomemos finalmente consciência de que estamos rumo ao "ponto Ômega" (10), da virada do velho paradigma mecanicista para o novo, Holístico e Transpessoal, segue a carta de Chemas.

Por Mario Rodriguez


A Força da Palavra na Comunicação de Massa
e a Pobreza Intelectual Espiritual no Brasil

Um dos nomes mais marcantes da música popular fala sobre o que é cantado e apresentado para as massas e a influência da palavra no comportamento humano.

A comunicação de massa é um movimento espontâneo. Como artista, acompanho esta manifestação e participo deste processo. Percebo que, em se tratando de música, a variedade de ritmos e de composições existentes hoje oferece para as novas gerações as mais diferentes apresentações e abordagens. O que se observa neste sentido é que a cada década se inaugura uma “Nova Moda”, seja na expressão da linguagem, nas apresentações artísticas, no comportamento, e conseqüentemente nas relações sociais. Se tudo é propagado pela mídia, a influência dos veículos de comunicação sobre as pessoas, principalmente os jovens, é enorme, no modo de expressar-se, na mudança dos conceitos, na transformação de seu comportamento, nas diferentes formas de lidar com o mundo e com o outro.

Na MPB, por exemplo, tudo o que se entendia por estética musical sofreu profundas alterações. Enquanto as misturas rítmicas trouxeram um enriquecimento fabuloso para o que podemos chamar de música pop brasileira, as composições revelaram um empobrecimento intelectual. Dos anos 60 a 70, o movimento tropicalista – pai do que há de mais genuíno em MPB - nos deu uma forma brasileira de modernidade, em sintonia com o que podemos chamar de movimento pop, e influenciou a produção do que existe de melhor na música jovem brasileira. A indústria da música “treche”, música essencialmente comercial, expressa a realidade intelectual em que se encontra a maioria da população.

Mas o vínculo com a sensualidade, que é uma qualidade natural do povo brasileiro, perdeu-se; deturpou-se numa linguagem pobre, através de uma exploração exacerbada.
É uma sub-cultura musical que enaltece a vulgaridade e explora os temas menos nobres da natureza humana. Os exemplos são evidentes e constantes nas rádios. Se o Brasil é um país onde os jovens têm uma ligação inata e intensa com a música, como negar a influência da Palavra veiculada na sua formação, comportamento e relações sociais?

Veículos de comunicação, apinhados de lixo, cultivam menos a qualidade da atuação profissional dos artistas que os assuntos ligados à sua intimidade sexual. Filmes repletos de cenas de sexo e violência não têm o menor pudor ou escrúpulo sobre se as mensagens veiculadas dificultam ou favorecem o árduo trabalho de educação dos pais. A complexidade forçada das relações abordadas nas novelas revelam bem mais o lado negativo do homem que seu potencial criativo e fraterno. A banalização das letras de músicas que exploram a sexualidade em sua forma mais vulgar, com total desrespeito à dignidade da mulher e do feminino, promovem uma postura pobre e imatura para os relacionamentos, bloqueando a nobreza espiritual inata do Ser. Toda esta exploração inconveniente e mercantil, ao invés de contribuir para uma evolução do espírito das novas gerações, deforma o conceito de conduta social cívica, do que é ser jovem, do que são as relações afetivas e do que é o verdadeiro amor.

Brasil, com uma imensa maioria de pessoas pobres, tem nas relações humanas a única salvação para suas dificuldades, já que é um país solidário, onde sempre se conta com o apoio do outro. É vital, portanto, que as noções de Bem e de respeito pelo outro, as leis da boa convivência e os direitos básicos de cada um, não sejam esquecidos e atropelados em favor de uma ganância impiedosa.

Embora eu tenha origem simples e apesar das dificuldades econômicas por que passei, vivi uma infância maravilhosa e intensa, nada tenho a me queixar. Cresci, amadureci. Hoje quando vejo com freqüência meninas de 11 anos grávidas, não me é possível considerar isso um processo natural das coisas.

Não podemos ignorar o indivíduo como potência. Cada ser que habita este planeta tem o seu valor e o seu lugar. E é isso que precisa ser considerado, exibido e cantado. Acredito que através da busca incessante da renovação espiritual do homem, nosso crescimento continua, ainda que a passos lentos. O entorpecimento pela poluição acústica martelante a que somos submetidos no nosso dia a dia nos impede de enxergar o essencial: o potencial do ser humano em autoconhecimento e autotransformação.

Mas esta situação deve se transformar. O Brasil é um país ímpar, pelas qualidades singulares de seu povo, mas está propenso a viver ainda anos dormindo se não houver a cura desta séria intoxicação, causada no pensar e sentir da população pela quantidade de poluição produzida pelos meios de comunicação. É preciso aumentar a auto-estima do povo brasileiro, para a formação de ainda melhores gerações, mais equilibradas e centradas nos princípios de relações humanas e sociais fraternas e solidárias.

Não é só a educação, a saúde e a alimentação que combatem a pobreza, a miséria e a violência que imperam entre as massas. Tão relevante quanto elas, são as orientações positivas, construtivas e criativas, dadas pelos que têm o papel social de serem formadores de opinião. Para isso, é fundamental que a música, o canto, a dança, o teatro, o cinema e a televisão sejam caminhos de elevação do ser humano e não atalhos perpetuadores da ignorância e da alienação.


por Margareth Menezes

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