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Emergência
Espiritual
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Dr.
Stanislav Grof |
Stanislav
Grof é para a Psicologia Transpessoal o mesmo
que Freud foi para a Psicanálise. Tanto em termos
clínicos, como teóricos, como práticos. Grof "praticou"
Psicologia Transpessoal, desde antes de terminar
sua graduação como médico psiquiatra. Aos 24 anos,
quando já trabalhava como pesquisador no departamento
de Medicina Psiquiátrica na Universidade de Praga,
República Checa, ele tomou uma potente dose de
LSD-25 e viveu, durante algumas horas, uma extraordinária
viagem de Consciência Cósmica. Segundo ele, esta
experiência o marcou profundamente em toda sua
vida tanto pessoal como profissional. Hoje com
71 anos, e internacionalmente reconhecido como
o maior expoente da Psicologia Transpessoal no
mundo, ele nos concedeu esta entrevista, na sua
breve mais frutífera estada em Salvador. (*)
Revista Omega
- O que o levou a estudar com tão profundo
interesse os estados não-comuns de consciência?
Stanislav
Grof - Em meu trabalho
como psiquiatra, inúmeras questões fundamentais
sobre a existência, que os seres humanos têm-se
feito desde tempos imemoriais, emergiram de forma
espontânea e com urgência extraordinária nas mentes
de muitas das pessoas com as quais tenho trabalhado.
A razão de ser esse um campo incomum de estudo
despertou-me o interesse que tem sido o foco principal
durante 45 anos de vida profissional: a pesquisa
sobre estados expandidos de consciência. Este
interesse surgiu de forma inesperada e dramática
em 1956, apenas alguns meses após minha formatura
da escola médica, quando fui voluntário para uma
experiência com o LSD, enviado para experimentação
por Albert Hoffman, do laboratório Sandoz, em
Basilea, Suíça. Esta experiência proveu a inspiração
para meu compromisso de vida com a pesquisa da
consciência. Embora tenha me interessado por todo
o espectro dos estados alterados de consciência,
tive mais experiências pessoais com a exploração
psicodélica, com o trabalho terapêutico, envolvendo
pessoas vivendo crises psicoespirituais espontâneas
(emergências espirituais), e com o trabalho de
respiração holotrópica.
Omega
- E nesses 45 anos de estudo, pesquisa e trabalho,
que descobertas o Sr. constatou quanto à natureza,
às dimensões da consciência humana?
Grof
- Primeiro, as implicações extraordinárias desse
estudo sistemático da Consciência para a compreensão
das desordens emocionais e psicossomáticas na
psicoterapia. As experiências e observações provenientes
desta exploração revelaram aspectos e dimensões
da realidade que geralmente estão escondidos de
nossa percepção diária. Elas confirmam e apóiam
a postura dos ensinamentos clássicos das filosofias
espirituais e tradições místicas, tais como Vedanta,
Budismo Mahayana e Hinayana, Taoísmo, Sufismo,
Gnosticismo, Misticismo Cristão, Cabala, e muitos
outros sistemas espirituais sofisticados. Assim
sendo, essas descobertas são radicalmente conflitantes
com os pressupostos básicos da ciência materialista
na medida em que indicam claramente que a Consciência
é o princípio primário da existência, e que tem
papel fundamental na criação do universo dos fenômenos.
Esta pesquisa também muda radicalmente nossa concepção
da psique humana. Ela mostra que a psique de cada
um de nós é essencialmente comensurável ao Todo
da existência e idêntica ao próprio princípio
criativo do cosmos. Essa moderna pesquisa, em
sua essência, confirma os princípios básicos da
chamada "filosofia perene", que revelou
um grande esquema proposital subjacente a toda
criação e mostrou que toda a existência é permeada
por uma inteligência Superior. À luz destas descobertas,
a espiritualidade afirma-se como o empreendimento
mais importante e legítimo da vida humana, já
que reflete uma dimensão crucial da psique e do
esquema universal das coisas.
Omega
- De que maneira estas novas descobertas,
que confirmam e apóiam os ensinamentos das tradições
místicas e filosofias espirituais do passado,
são radicalmente conflitantes com a visão materialista
do universo?
Grof
- Se considerarmos a descrição do universo, natureza
e seres humanos desenvolvida pela ciência materialista,
fica claro que esta contrasta frontalmente com
os relatos oferecidos pelas escrituras das grandes
religiões do mundo. Tomadas literalmente e julgadas
pelos critérios de várias disciplinas científicas,
as histórias da criação do mundo, origem da humanidade,
morte e renascimento de personagens divinas pertencem
ao reino dos contos de fadas ou aos manuais de
psiquiatria. As tradições místicas e as filosofias
espirituais do passado têm sido com freqüência
descartadas e ridicularizadas por serem consideradas
irracionais e não-científicas. Isto é um julgamento
mal informado que não tem justificativa nem legitimidade.
Muitos
dos grandes sistemas espirituais são produtos
de milênios de profundas explorações sobre a consciência
e a psique humana, o que de muitas formas se assemelha
à pesquisa científica. Estes sistemas oferecem
instruções detalhadas dos métodos de induzir experiências
espirituais sobre as quais baseiam suas convicções
filosóficas. Elas vêm sistematicamente coletando
dados provenientes destas experiências e sujeitando-os
à validação por consenso coletivo, geralmente
por um período de muitos séculos. Estes são exatamente
os estágios necessários para se alcançar um conhecimento
sólido e confiável em qualquer área de empreendimento
científico. É muito estimulante o fato de essas
conclusões, embora frontalmente conflitantes com
nossa sociedade tecnológica moderna, serem totalmente
concordantes com a realidade encontrada em todas
as tradições espirituais universais, as quais
o escritor e filósofo anglo-americano Aldous Huxley
chamou, em 1945, de "Filosofia Perene".
A Psiquiatria Ocidental descartou as tradições
místicas como `irracionais e não científicas",
porém elas são o produto de milênios de profundas
explorações sobre a Consciência. A observação
atenta da similitude de resultados com o uso milenar
das mesmas técnicas comprovam a sua existência
e veracidade. Este é o sonho de toda moderna pesquisa
científica: a confirmação das suas afirmações
pelo maior de todos os Mestres - o Tempo. A diferença
mais gritante entre as duas visões de mundo não
é a quantidade e exatidão dos dados sobre a realidade
material. É uma divergência fundamental relativa
à dimensão sagrada ou espiritual da existência.
Todos os grupos humanos da era pré-industrial
concordavam em que o mundo material que percebemos
e no qual operamos em nossa vida cotidiana não
é a única realidade. Suas visões de mundo, embora
variassem em detalhes, descreviam o cosmos como
um sistema complexo de níveis de existência ordenados
hierarquicamente. Nesta compreensão da realidade,
o mundo da matéria é o último elo, o mais denso.
Estas descrições das dimensões sagradas da realidade
e a ênfase sobre a vida espiritual estão em nítido
conflito com o sistema de crenças que domina a
civilização industrial, na qual vida, consciência
e inteligência são vistas como epifenômenos mais
ou menos acidentais e insignificantes deste desenvolvimento.
Claramente, a compreensão da natureza humana e
do universo baseada em tais premissas é o princípio
incompatível com qualquer forma de crença espiritual.
Omega
- O que significa a mudança radical
da concepção da psique humana de que o Sr. fala?
Grof
- Segundo a ciência ocidental, o universo é uma
montagem enormemente complexa de partículas materiais.
Alega-se que a vida, a consciência e a inteligência
surgiram numa porção negligenciável de um cosmos
imenso após bilhões de anos de evolução da matéria.
A vida deveria sua origem a processos químicos
fortuitos no oceano primevo que uniu átomos e
moléculas inorgânicas, assim formando compostos
orgânicos. A matéria orgânica adquiriu, então,
no decorrer da evolução, a capacidade de autopreservação,
reprodução e organização celular. Os organismos
unicelulares agrupavam-se criando formas de vida
multicelulares cada vez maiores, e eventualmente
desenvolveram-se em uma rica panóplia de espécies
habitando a terra, culminando no homo sapiens.
Dizem-nos que a consciência emergiu nos estágios
adiantados desta evolução advinda da complexidade
dos processos fisiológicos no sistema nervoso
central. Seria um produto do cérebro e como tal
estaria confinada à parte interna do crânio.
Segundo
esta maneira de compreender a realidade, o conteúdo
de nossa psique é mais ou menos limitado à informação
de nossos órgãos sensoriais no contato com o mundo
externo desde a época que nascemos. Além disso,
a natureza e a extensão de nossa recepção sensorial
é determinada pelas características físicas do
meio ambiente e pelas propriedades e limitações
fisiológicas de nossos sentidos. Por exemplo,
não podemos ver objetos se estivermos separados
deles por uma parede sólida.
As
experiências nos estados não-comuns de consciência
desafiam seriamente tal compreensão estreita do
potencial da psique humana e dos limites de nossa
percepção. O que podemos vivenciar nestes estados
não se limita a memórias de nossas vidas após
o nascimento e ao inconsciente individual de Freud,
conforme fomos levados a acreditar através dos
ensinamentos dos cientistas materialistas. As
experiências holotrópicas alcançam muito além
das fronteiras do que o escritor anglo-americano
Alan Watts jocosamente chamou de "o ego encapsulado
na pele". Elas nos levam a vastos territórios
da psique ainda não mapeados pelos psicólogos
e psiquiatras ocidentais.
Omega
- O Sr. havia dito que, pelas suas
observações, a espiritualidade é um importante
e legítimo empreendimento na vida humana, já que
"reflete uma dimensão crucial da psique e
do esquema universal das coisas". Por favor,
explique isso.
Grof
- A espiritualidade baseia-se em experiências
diretas de dimensões não-comuns da realidade.
Ela envolve um tipo especial de relação entre
o indivíduo e o cosmos e é, em sua essência, um
assunto individual e íntimo. No berço de todas
as grandes religiões, encontram-se as experiências
visionárias de seus fundadores, profetas, santos
e até mesmo de seus seguidores comuns. Todas as
principais escrituras espirituais - os Vedas,
os Upanishads, o Cânon Pali Budista, a Bíblia,
o Alcorão, o Livro dos Mormons, e muitos outros
- são baseadas em revelações pessoais diretas,
que revelam verdades profundas sobre alguns aspectos
básicos da existência. Buda teve a visão da longa
cadeia de suas encarnações anteriores e experienciou
uma profunda liberação dos elos cármicos. A "jornada
milagrosa" de Maomé, um poderoso estado visionário
durante o qual o arcanjo Gabriel o escoltou através
dos sete céus Muçulmanos, o Paraíso e o Inferno,
foi a inspiração do Alcorão e da religião Islâmica.
Na tradição judaico_cristã, O Antigo Testamento
oferece um relato dramático da experiência de
Moisés com Jeová na sarça ardente, e o Novo Testamento
descreve a tentação de Jesus pelo diabo durante
sua estada no deserto. De maneira semelhante,
a visão ofuscante que Saulo teve de Cristo a caminho
de Damasco, a revelação apocalíptica de São João
em sua caverna, na ilha de Patmos, a observação
de Ezequiel da carruagem de fogo e muitos outros
episódios são claramente experiências transpessoais
em estados não-comuns de consciência.
Infelizmente,
a psicologia e a psiquiatria tradicionais são
dominadas pela filosofia materialista, não têm
uma compreensão genuína da religião nem da espiritualidade
e rejeitam indiscriminadamente quaisquer conceitos
e atividades espirituais. Muitos personagens religiosos
e espirituais, tais como Buda, Jesus, Ramakrisma
e Sri Ramana Maharshi, São João da Cruz, Santa
Tereza d´Avila, têm sido vistos como que sofrendo
de psicoses devido às suas experiências visionárias
e "delusões".
Omega
- Nesse sentido, ciência e religião são incompatíveis?
Grof
- É difícil reconciliar conceitos como Consciência
Cósmica, reencarnação ou iluminação espiritual
com os princípios básicos da ciência materialista.
Porém não é impossível fazer uma ponte sobre o
hiato entre ciência e religião se as duas forem
compreendidas corretamente. Há muita confusão
entre as concepções errôneas sobre a natureza
e função da ciência- que resultam no uso impróprio
do pensamento científico- e a má compreensão relativa
à natureza e função da religião. A falha em diferenciar
espiritualidade de religião é provavelmente a
mais importante fonte de mal-entendidos concernentes
à relação entre ciência e religião. Compreendidas
corretamente, a verdadeira ciência e a religião
autêntica são duas importantes abordagens à existência
que são complementares. E o único campo capaz
de abordar a espiritualidade cientificamente é,
portanto, a pesquisa, que focaliza a exploração
sistemática e imparcial dos estados não-comuns
de consciência.
Omega
- Como o Sr. define os estados não-comuns de consciência?
Grof - Dou ao estados não-comuns de consciência
o nome de holotrópico, que literalmente significa "orientado
ou movendo-se para a totalidade / inteireza" (do grego Holos
: Todo/inteiro; e Trepein : movendo-se para ou em direção a). Eles
nos trazem extraordinários insights filosóficos, metafísicos e espirituais,
reveladores de aspectos e dimensões cruciais da Grande Realidade,
que normalmente ficam ocultos à nossa Consciência ordinária. Indicam,
com clareza, que nossa psique não é um produto do cérebro, mas o
princípio primário da Existência, que tem o papel original na criação
do universo fenomênico, tal qual o vemos. O termo holótropico sugere
que em nosso estado diário de consciência nós não estamos realmente
inteiros; estamos fragmentados e nos identificamos com apenas uma
pequena fração de quem realmente somos.
Omega
- Como se caracterizam estes estados holotrópicos?
Grof
- Caracterizam-se por uma transformação específica da consciência,
associada a mudanças de percepção em todas as áreas sensoriais,
emoções intensas e geralmente estranhas e profundas alterações nos
processos de pensamento. Eles, geralmente, também são acompanhados
por uma variedade de intensas manifestações psicossomáticas e formas
de comportamento não-convencionais. A consciência é mudada qualitativamente
de forma muito profunda e fundamental, mas, diferente das condições
de delírio, ela não é deteriorada. Nos estados holotrópicos, experimentamos
uma entrada em outras dimensões da existência, muito intensas e
às vezes avassaladoras, mas não perdemos contato com a realidade
externa. Experimentamos de forma simultânea duas realidades bem
diferentes, que vão desde o enlevo extático até certas formas de
sofrimento emocional extremo.
"A diferença mais gritante entre as duas visões de
mundo não é a quantidade e exatidão dos dados sobre a realidade
material.
É uma divergência fundamental relativa à dimensão sagrada
ou espiritual da existência".
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As
emoções associadas a estados holotrópicos cobrem um amplo espectro
que se estende muito além dos limites de nossa experiência diária.
Elas vão desde sensações de bem-aventurança celestial, "paz
além de qualquer compreensão" a episódios de terror abismal,
raiva sobrecomum, desespero total, culpa consumidora, e outras formas
de sofrimento emocional extremo. As sensações físicas que acompanham
estes estados são igualmente polarizadas. Dependendo do conteúdo
da experiência, pode-se ter uma sensação extraordinária de prazer,
saúde e bem-estar, de perfeito funcionamento fisiológico, mas, também,
podem ser de desconforto extremo, tais como dores lancinantes, opressão,
náusea, ou sensação de estar sufocando.
Omega
- Como médico psiquiatra, de que maneira o Sr. descreve esse
estado?
Grof - A psiquiatria moderna não faz diferença
entre estados espirituais ou místicos e episódios psicóticos. As
pessoas vivendo esses estados geralmente são diagnosticadas como
doentes mentais, hospitalizadas e submetidas a tratamento farmacológico
de sedação. Mas minha esposa e eu sugerimos que muitos desses estados
são, na realidade, crises psicoespirituais ou "emergências
espirituais". Se compreendidas de forma apropriada e se os
indivíduos, passando por estas crises, tiverem o apoio de facilitadores
experientes, os episódios deste gênero podem resultar em curas psicossomáticas,
aberturas espirituais, transformações positivas da personalidade
e evolução de consciência.
Omega
- Como são induzidas essas experiências holotrópicas?
Grof - Podem ser induzidas por meio de
várias técnicas aborígines antigas, que na Antropologia são chamadas
de "Tecnologias do Sagrado". Uma particularmente eficaz
tem sido a utilização ritualística de plantas e substâncias psicodélicas.
Estas
técnicas de mudança de consciência têm desempenhado um papel crítico
na história ritualística e espiritual da humanidade. A indução a
estados holotrópicos tem sido absolutamente essencial ao xamanismo,
aos ritos de passagem e a outras cerimônias das culturas nativas.
Ela também representou o elemento-chave dos antigos mistérios de
morte e renascimento que foram conduzidos em diferentes partes do
mundo e aflorou principalmente no Mediterrâneo. Nos
tempos modernos, o espectro de técnicas de alteração mental enriqueceu
consideravelmente. As abordagens clínicas incluem a utilização de
alcalóides puros de plantas psicodélicas ou de substâncias psicodélicas
sintéticas, assim como as formas potentes de psicoterapia existencial,
tais como hipnose, terapia primal, renascimento e respiração holotrópica.
É importante enfatizar que episódios de estados holotrópicos de
profundidade e duração variadas também ocorrem espontaneamente sem
qualquer causa específica identificável, e freqüentemente contra
a vontade das pessoas envolvidas.
Omega
- Você organizou o XIV Congresso Internacional de
Psicologia e Psiquiatria Transpessoal em Manaus, em 1996, com o
nome de "Tec-nologias do Sagrado", que contou com quase
2000 profissionais americanos da área. Você conhece muito bem o
trabalho com a Hoasca de vários mestres da Amazônia. Na sua palestra
na ABM eu lhe perguntei: qual é hoje, a substância enteógena por
excelência, sem efeitos colaterais, que não produz dependência e
é ao mesmo tempo benéfica para o desenvolvimento mental, emocional
e espiritual da pessoa. Você pode repetir a sua resposta?
Grof
- No percursso dos 45 anos de carreira profissional de Psiquiatria
e Pesquisa da Consciência, já conduzi pessoalmente mais de cinco
mil sessões com substâncias expansoras da consciência, tais como:
LSD, Psilocibilina, Mescalina, Dipropil-triptamina e Metil- dioxi-anfetamina,
e tive acesso a mais de 2000 sessões conduzidas pelos meus colegas
psiquiatras. A substância enteógena por excelência, de acordo com
sua pergunta, e que reúne essas condições, é a Hoasca. É justamente
por isso que Manaus foi escolhida para sediar um evento dessa relevância.
Várias Universidades do mundo, incluindo algumas norteamericanas
muito prestigiadas, como a UCLA (University of California, em Los
Angeles) têm feito pesquisas neurofarmacológicas e psicológicas
intensas e de longo prazo sobre o poder enteógeno e benéfico da
Hoasca.
Omega
- De que natureza é o conteúdo desses estados holotrópicos de
consciência?
Grof
- É geralmente de natureza filosófica e espiritual. Nesses episódios
podemos experimentar seqüências de morte e de renascimento psicoespiritual
ou sensações de unidade com outras pessoas, com a natureza, o universo
e com Deus. Podemos descortinar o que parecem ser memórias de outras
encarnações, encontrarmo-nos com poderosos seres arquetípicos, comunicarmo-nos
com entidades desencarnadas, e visitar numerosos domínios mitológicos.
"E assim, nada além da experiência de união mística
com a fonte divina irá saciar nossos anseios
mais profundos."
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Os
insights vivenciados são acompanhados por uma sensação de clarificação
repentina. Como neste nível o mundo material é percebido como uma
expressão da Consciência Absoluta, e esta última, por sua vez, parece
ser intercambiável com o Vazio Primordial, as experiências transcendentais
deste gênero provêm uma solução inesperada para alguns dos problemas
mais difíceis e complexos que acossam a mente racional. Os insights
de pessoas que já vivenciaram estados holotrópicos de consciência
relativos à origem da existência são de uma impressionante semelhança
àqueles encontrados na "filosofia perene": O reconhecimento
de nossa própria natureza divina, nossa identidade com a fonte cósmica,
é a descoberta mais importante que podemos fazer durante o processo
de exploração profunda. É a revelação de que nossa identificação
usual com "o ego encapsulado na pele", consciência individual
corporificada, ou "nome e forma" é uma ilusão e que nossa
verdadeira natureza é a energia cósmica criativa. Esta revelação
relativa à identidade do indivíduo com o divino é o segredo supremo
que se encontra no cerne de todas as grandes tradições espirituais,
embora seja expresso de formas diferentes.
Omega
- A partir desses insights, como se percebe o mundo
material?
Grof
- É percebido como um mundo de matéria sólida, onde se destaca o
espaço tridimensional, o tempo linear e a causalidade inexorável,
conforme o experimentamos em nossos estados comuns de consciência.
Em vez de ser a única realidade verdadeira, conforme é retratado
pela ciência materialista, é uma criação da Consciência Absoluta.
À luz desses insights, o mundo material de nossa vida cotidiana,
incluindo nosso próprio corpo, é uma tessitura intrincada de percepções
e leituras errôneas, uma "realidade virtual" infinitamente
sofisticada, uma peça de teatro divina criada pela Consciência Absoluta
e o Vazio Cósmico. Nosso universo, que parece conter incontáveis
miríades de entidades e elementos separados, é em sua essência mais
profunda um só Ser de imensas proporções e complexidade inimaginável.
E assim, nada além da experiência de união mística com a fonte divina
irá saciar nossos anseios mais profundos.
Omega
- Alguns sistemas religiosos retratam o mundo material como
um domínio inferior, que é imperfeito, impuro e conducente ao sofrimento
e à miséria. Outras orientações espirituais abraçam a natureza e
o mundo material como contendo ou incorporando o divino, ou definem
o objetivo da jornada espiritual como dissolução das barreiras pessoais
e reunião com o Divino. Como o Sr. vê isso?
Grof
- De fato, alguns credos retratam a realidade como um vale de lágrimas
e a existência encarnada como uma maldição ou um pântano de morte
e renascimento, e oferecem a seus seguidores a promessa de um domínio
mais desejável ou um estado mais satisfatório de existência no Além.
Já outras têm uma orientação distintamente afirmadora e celebradora
da vida. O Mahayana Budista, por exemplo, ensina que podemos alcançar
a libertação em meio à vida diária se nos libertarmos dos três "venenos"
_ ignorância, agressão e desejo. Contudo, as pessoas que chegaram
a experienciar, em suas explorações internas, a identificação com
a Consciência Absoluta percebem que definir o objetivo final da
jornada espiritual envolve um problema sério: a indiferenciada Consciência
Absoluta/Vazio representa não apenas o fim da jornada espiritual,
mas também a fonte e o início da criação.
Há,
portanto, uma interação dinâmica de duas forças fundamentais: uma
centrífuga (hilotrópica ou orientada para a matéria); outra centrípeta
(holotrópica ou visando à totalidade) em relação ao princípio criativo.
A Consciência Cósmica mostra uma tendência elementar de criar mundos
de pluralidade que contêm incontáveis seres separados, e, inversamente,
as unidades de consciência individualizadas experienciam sua separação
e alienação como dolorosas e manifestam uma forte necessidade de
voltar à fonte e reunir-se a ela. A identificação com o eu corpóreo
é repleta de problemas de sofrimento físico e emocional, limitações
espaciais e temporais, impermanência e morte. Sentimos, no entanto,
na profundidade de nosso interior, que nossa existência enquanto
eu corpóreo e separado no mundo material é, em si e por si, inautêntica
e não pode satisfazer nossas necessidades mais profundas. Sentimos
um apelo muito forte para transcender nossas barreiras e recuperar
nossa verdadeira identidade.
"Quando
as coisas ficam por demais difíceis e devastadoras, podemos invocar
a grande perspectiva cósmica que descobrimos na busca interna. A
conexão com realidades mais elevadas e o conhecimento libertador
de anatta e do vazio por trás de todas as formas tornam possível
tolerar aquilo que de outra forma poderia ser insuportável."
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Em
Medicina, Deixar de Aprender é Crime!
Esta
máxima sobre o exercício da cura, que se aplica tanto à Medicina
quanto à Psicologia,
é comentada pelo psicólogo Mário Rodriguez.
"Só
se pode falar com verdadeira propriedade das experiências e sentimentos
que marcaram nossa própria caminhada."
Como
eu sonhava muito e não entendia nada, aos 16 anos, meu pai me deu
"A Interpretação dos Sonhos", de Freud.
Li, e aos 17 comecei a minha primeira análise com Dr. Winkler, professor
de Psiquiatria da Faculdade de Medicina e membro didata da APU
(Associação Psicanalítica do Uruguai).
Sua
enorme casa no Boulevard, em frente à imponente Faculdade de Arquitetura
da República, era para mim Berggasse 29 (1).
Eu subia "voando" as longas escadas do "Castelo de
Saber" de Winkler, onde os meus sonhos eram "desvendados
à la Freud". Depois da sessão, descia lentamente, avaliando
cada degrau e cada palavra que eu tinha me dito,
tanto mais que as que Winkler tinha dito. Muito cara a Psicanálise,
mas na época (1967) era a única forma que tínhamos
de escutar o ouro da palavra "bem-dita" e aliviar nossa
alma e nosso corpo do chumbo da palavra "mal-dita".
Aos
18, senti que estava "podendo" interpretar as mensagens
da minha alma, que chegavam através dos sonhos, e portanto estava
pronto para deixar o "Castelo" e sair à procura do "Graal".
Um ano nos EUA me deu a "Língua do Império"
e uma certa compreensão dele; outro ano, viajando de barco pelo
mundo, um pouco da dimensão da grandeza dos seus povos. Muitos anos
de Universidades na Alemanha, França e Espanha não saciaram a minha
sede de Universo, que então, eu não sabia, é infinita.
Nesses anos universitários, tive três grandes psicanalistas. Já
aqui no Brasil, "completei" o trabalho com 5 anos de uma
"Psicanálise Didática", com um dos mais reconhecidos analistas
lacanianos, o primeiro "A. E." do Brasil:
Analista de L'École Freudienne
de Paris", juridicamente os únicos legítimos herdeiros da propriedade
intelectual da obra de Lacan.
Em
Psicanálise Grupal, a experiência ganhou climax quando, em 1982,
convidamos Emilio Rodrigué (glória da Psicanálise
latino-americana e pai de várias gerações de psicanalistas baianos)
para ministrar um workshop-laboratório sobre
"A LOUCURA", para o staff do Hospital Psiquiátrico
de Palma de Maiorca. Do Psiquiatra - Diretor até à enfermeira psiquiátrica,
18 profissionais da Saúde Mental "enlouquecemos"
a tal ponto, durante três dias, que só a grande intuição e as muitas
décadas de experiência no leme de Rodrigué evitaram um desastre.
Nesses três dias de violentas tempestades, ele guiou o barco, com
pulso firme, entre rochedos, e levou Ulysses, seu
barco e sua gente a um porto seguro de retorno. Esta "Odisséia"
foi relatada por Rodrigué num livro, e está disponível, com os nomes
próprios dos participantes (2).
É
difícil argumentar que eu não estudei profundamente a Psicanálise
ou que não a transitei apaixonadamente no intuito tempestuoso de
me compreender. Mas não foi suficiente. Por quê? Jean Ives
Leloup, mestre do Transpessoal, responde de forma impecável
(3): "porque não é preciso opor o
conhecimento de si mesmo que a Psicologia propõe ao conhecimento
de si mesmo que a Espiritualidade propõe. Uma Psicologia que não
se abre a um itinerário espiritual arrisca-se a nos enclausurar
e até mesmo a nos desesperar. Como o próprio Lacan diz: "O
sinal de que uma psicanálise teve êxito é que a pessoa analisada
vai se suicidar" (sic: citado textualmente por Leloup
do original francês). Que pobreza de prêmio para quem se empenhou
tanto tempo, arduamente, de mente e de alma, para conhecer-se e
compreender-se e assim tentar conhecer e compreender o mistério
da Vida. O suicídio, o prêmio mais miserável de
todos. Leloup, como sempre, vê além: "Ao final
de uma análise, ao final de um itinerário espiritual, não sobra
quase nada da imagem que se tinha de si mesmo no início do processo.
É como se (4) houvesse uma morte. Mas
o objetivo não é a morte; é a ressurreição. A Psicanálise
é uma psicologia fechada em si mesma, dependente de uma antropologia
limitada, não aberta à transcendência, não aberta ao desconhecido
que habita a profundeza do ser humano e a profundeza do Ser
Cósmico".
Um
claro exemplo desta antropologia limitada é a resposta dada por
Jorge Forbes, talvez o mais conhecido e citado
lacaniano do Brasil (5), à última pergunta
da revista "Isto É", de 02-05-01. Perguntado
se a globalização pode ser benéfica ao indivíduo, ele responde:
"Antigamente o jovem dizia que não tinha liberdade de escolha.
Hoje ele tem esta liberdade e se sente perdido. Por não saber o
que fazer, acha que tudo o que faz é pouco. E quando chega a esta
conclusão, se deprime ou se droga. Mas é bom lembrar que os próprios
jovens nos indicam as soluções: a música eletrônica e os
esportes radicais(?!) surgem como as novas formas de lidar
com o mundo moderno." (sic: fim da entrevista!).
Esta
outra "pérola" do pensamento lacaniano nos faz perguntar:
para quem fala ou escreve Forbes? Como se pode analisar alguém durante
tantos anos para chegar a conclusões tão paupérrimas em relação
ao Sentido da Vida, ao chamado "Desejo"
em Lacan, ou o Verdadeiro Querer do Espírito
Humano? Leloup, nas antípodas, conhecendo o caminho do
meio, diz: "Mas os itinerários espirituais sem o discernimento
psicológico, sem um trabalho de transformação pessoal
correm o risco de nos conduzir à megalomania e ao narcisismo (....).
O que impressiona em um ser humano que entrou neste caminho
de transformação é, ao mesmo tempo, sua grandeza e sua humildade.
Ele sabe que é pó e que ao pó retornará, mas também sabe que é luz
e que à Luz retornará. O que é o ser humano senão
essa poeira que caminha para a Luz e dança nela? O importante
é o caminhar".
Onze
anos atrás, na imprensa baiana, aconteceu um incidente entre o Dr.
R. Chemas, médico psiquiatra e cientista, e um outro colega, também
médico psiquiatra e analista lacaniano. Por causa da extrema vigência
da carta-resposta de R. Chemas, escrita em 1990, num mundo em que
tudo muda com tanta vertigem, ÔMEGA decide republicá-la.
Chemas
conhece a psicanálise por dentro. Foi estudioso de Freud e Jung
desde a Faculdade, submeteu-se a longos anos de análise com o próprio
Emílio Rodrigué. Mas o relevante é que aprendeu dos gregos a não
fazer diferenças entre ciência, filosofia, espiritualidade e alquimia.
Chama a todas elas PHYSIS, só diversas formas dos
humanos de tentar explicar e expressar O Supremo.
Talvez seja por saber fazer tão bem esta síntese que é considerado
um dos quinhentos maiores cientistas vivos do mundo (6).
A
pertinência desta republicação é pautada por outros fatos:
a)
A evidência (que fica clara através do texto de Chemas) de que a
Psicologia Transpessoal mantém seus postulados em concordância com
as mais modernas descobertas científicas e que segue os critérios
de pesquisa da Ciência.
b)
O fato de que no número anterior desta revista mencionamos tantos
dos conceitos usados por Chemas nesta carta, bem antes de tê-la
lido, lhe confere um caráter premonitório. Os conceitos de Kosmos
x Kaos; Espaço-Tempo n-dimensional; papel chave de Grof como o maior
pesquisador científico da Consciência, só se confirmaram
e reafirmaram neste últimos 11 anos.
c)
Em novembro passado, com toda a sua imensidão de bondade, corpo
e humildade, Grof esteve em Salvador. Presenteou-nos
com duas brilhantes palestras, a primeira na UNEB
e a segunda, de quatro horas, no auditório Magno da Associação
Baiana de Medicina. Esta última contou com a quase total
ausência de médicos, psiquiatras, psicólogos e ou psicanalistas
para escutá-lo e questioná-lo. Queremos ressaltar a responsabilidade
do trabalho científico, consciente que Grof fez,
durante mais de 45 anos, das substâncias enteógenas (7)
em geral e do LSD em particular, para pesquisar e mapear a aparente
infinita amplidão da nossa Consciência.
Seu
extraordinário prestígio internacional como diretor do Centro de
maior excelência em pesquisa psiquiátrica do mundo, o Maryland
Psiquiatric Research Center (8), que é diretamente
vinculado ao Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA,
mas seus 7 anos de professor de Psiquiatria do centro considerado
a "Harvard" da Medicina, a Universidade John Hopkins,
em Baltimore, Maryland (9), qualificam
Grof para saber falar deste assunto.
Honrando
todos estes pontos, e no intuito de que os profissionais da Saúde
tomemos finalmente consciência de que estamos rumo ao "ponto
Ômega" (10), da virada do velho paradigma
mecanicista para o novo, Holístico e Transpessoal, segue a carta
de Chemas.
Por
Mario Rodriguez |
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A
Força da Palavra na Comunicação de Massa
e a Pobreza Intelectual Espiritual no Brasil
Um
dos nomes mais marcantes da música popular fala sobre o que é cantado
e apresentado para as massas e a influência da palavra no comportamento
humano.
A
comunicação de massa é um movimento espontâneo. Como artista,
acompanho esta manifestação e participo deste processo. Percebo
que, em se tratando de música, a variedade de ritmos e de
composições existentes hoje oferece para as novas gerações
as mais diferentes apresentações e abordagens. O que se observa
neste sentido é que a cada década se inaugura uma
“Nova Moda”, seja na expressão da linguagem, nas
apresentações artísticas, no comportamento, e conseqüentemente
nas relações sociais. Se tudo é propagado pela mídia,
a influência dos veículos de comunicação sobre as pessoas,
principalmente os jovens, é enorme, no modo de expressar-se,
na mudança dos conceitos, na transformação de seu comportamento,
nas diferentes formas de lidar com o mundo e com o outro.
Na
MPB, por exemplo, tudo o que se entendia por estética musical
sofreu profundas alterações. Enquanto as misturas rítmicas
trouxeram um enriquecimento fabuloso para o que podemos chamar
de música pop brasileira, as composições revelaram um empobrecimento
intelectual. Dos anos 60 a 70, o movimento tropicalista –
pai do que há de mais genuíno em MPB - nos deu uma forma brasileira
de modernidade, em sintonia com o que podemos chamar de movimento
pop, e influenciou a produção do que existe de melhor na música
jovem brasileira. A indústria da música “treche”, música essencialmente
comercial, expressa a realidade intelectual em que se encontra
a maioria da população.
Mas o vínculo com a sensualidade, que é uma qualidade natural
do povo brasileiro, perdeu-se; deturpou-se numa linguagem
pobre, através de uma exploração exacerbada. É
uma sub-cultura musical que enaltece a vulgaridade e explora
os temas menos nobres da natureza humana. Os exemplos
são evidentes e constantes nas rádios. Se o Brasil é um país
onde os jovens têm uma ligação inata e intensa com a música,
como negar a influência da Palavra veiculada
na sua formação, comportamento e relações sociais?
Veículos
de comunicação, apinhados de lixo, cultivam menos a qualidade
da atuação profissional dos artistas que os assuntos ligados
à sua intimidade sexual. Filmes repletos de cenas de sexo
e violência não têm o menor pudor ou escrúpulo sobre se as
mensagens veiculadas dificultam ou favorecem o árduo trabalho
de educação dos pais. A complexidade forçada das relações
abordadas nas novelas revelam bem mais o lado negativo do
homem que seu potencial criativo e fraterno. A banalização
das letras de músicas que exploram a sexualidade em sua forma
mais vulgar, com total desrespeito à dignidade da mulher e
do feminino, promovem uma postura pobre e imatura para os
relacionamentos, bloqueando a nobreza espiritual inata do
Ser. Toda esta exploração inconveniente e mercantil, ao invés
de contribuir para uma evolução do espírito das novas gerações,
deforma o conceito de conduta social cívica, do que é ser
jovem, do que são as relações afetivas e do que é o verdadeiro
amor.
Brasil,
com uma imensa maioria de pessoas pobres, tem nas relações
humanas a única salvação para suas dificuldades, já que é
um país solidário, onde sempre se conta com o apoio do outro.
É vital, portanto, que as noções de Bem e de respeito pelo
outro, as leis da boa convivência e os direitos básicos de
cada um, não sejam esquecidos e atropelados em favor de uma
ganância impiedosa.
Embora
eu tenha origem simples e apesar das dificuldades econômicas
por que passei, vivi uma infância maravilhosa e intensa, nada
tenho a me queixar. Cresci, amadureci. Hoje quando vejo com
freqüência meninas de 11 anos grávidas, não me é possível
considerar isso um processo natural das coisas.
Não
podemos ignorar o indivíduo como potência. Cada ser que habita
este planeta tem o seu valor e o seu lugar. E é isso que precisa
ser considerado, exibido e cantado. Acredito que
através da busca incessante da renovação espiritual do homem,
nosso crescimento continua, ainda que a passos lentos. O entorpecimento
pela poluição acústica martelante a que somos submetidos no
nosso dia a dia nos impede de enxergar o essencial: o potencial
do ser humano em autoconhecimento e autotransformação.
Mas
esta situação deve se transformar. O Brasil é um
país ímpar, pelas qualidades singulares de seu povo, mas está
propenso a viver ainda anos dormindo se não houver
a cura desta séria intoxicação, causada no pensar e sentir
da população pela quantidade de poluição produzida pelos meios
de comunicação. É preciso aumentar a auto-estima
do povo brasileiro, para a formação de ainda melhores gerações,
mais equilibradas e centradas nos princípios de relações humanas
e sociais fraternas e solidárias.
Não
é só a educação, a saúde e a alimentação que combatem a pobreza,
a miséria e a violência que imperam entre as massas. Tão relevante
quanto elas, são as orientações positivas, construtivas e
criativas, dadas pelos que têm o papel social de serem formadores
de opinião. Para isso, é fundamental que a música,
o canto, a dança, o teatro, o cinema e a televisão sejam caminhos
de elevação do ser humano e não atalhos perpetuadores da ignorância
e da alienação.
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